A ODISSEIA DE UM DOENTE

 

O Jovem tinha uma vida saudável, familiar e profissional repleta de felicidades, uma esposa, uma filha, com quem partilhava amor e bem-estar. O marido e pai tinha corrido o mundo europeu e norte africano. Em Marrocos conheceu a companheira com quem vive há mais de vinte anos.

Um dia, há sempre um dia, ninguém diga que daquela água não beberei, o azar bateu-lhe à porta, quando se encontrava em Paris a trabalhar numa empresa, onde auferia um bom salário mensal e granjeava da estima do patrão.

Sem saber bem os motivos, começou a ter dores nos ombros, nas omoplatas, o que o obrigou a deixar de conduzir. Disseram-lhe que talvez fosse vítima de um vírus no local de trabalho, ou do esforço derivado às muitas viagens que fizera por diversos países, às cargas e descargas de matérias pesadas. Nada se sabia de concreto.

Regressou e tentou resolver os problemas de saúde em Portugal. Estes foram-se agravando, ao ponto de não conseguir levantar os braços.

Aborrecido, desesperado e ansioso, percorreu os caminhos de vários clínicas e consultou diversos médicos. Um ortopedista, conhecido de um familiar, aconselhou-o a não se submeter a intervenções cirúrgicas, mas a praticar fisioterapia.

Outro médico especialista, que praticava preços milionários, garantiu-lhe que ficaria curado com uma operação.

O médico ganancioso marcou-lhe a operação aos ombros, transferindo um pedaço de tecido da parte cimeira da perna para os ombros.

Apesar das garantias médicas de recuperação, esta foi sol de pouca dura. Escassos meses depois estava pior e  mais pobre. Ainda o aconselharam a ir para o hospital público. Com mil diabos, se estava nas mãos de um cirurgião que lhe garantia a total recuperação, para quê mudar?

O médico operou-o mais cinco vezes com os meus efeitos infrutíferos. Em operações e internamentos foram-se as suas economias, gastando trinta mil euros depois de ter sido informado que pagaria vinte mil. Elaborou uma exposição ao Provedor de Justiça, mas esta Instituição informou-o que nada poderia fazer.

Inconformado, dirigiu-se ao gabinete médico e exigiu o reembolso do dinheiro acordado. Conseguiu a recuperação de dois mil euros.

Uma tia Freira, que muito o ajudara, pediu a um médico especialista em cirurgias ortopédicas da Instituição das Irmãs para o observar.

Perante as cicatrizes nos ombros, o novo médico perguntou-lhe por quem lhe fizera aquele trabalho. O doente indicou-lhe o nome, tendo obtido como resposta: “esse senhor só vê dinheiro à sua frente, como foi possível este trabalho?” Parecia não haver soluções, só uma vaga esperança de que um dia melhoraria ligeiramente. O Jovem Doente, na sua Via-Sacra, passou a sofrer de depressões, ansiedades e desesperos, atenuados pelo muito Amor e dedicação dos novos médicos, corpo de enfermagem, pessoal técnico, amigos e familiares. Esperemos que a sua recuperação possa finalmente chegar.

 

António Alves Fernandes

Aldeia de Joanes

Abril/2018