A propósito de uma oliveira!
#MNAA Apetece-me contar uma pequena história a-propósito de uma oliveira (árvore simbólica na tradição ocidental) e de tanto comentário soez que tenho lido, com estupefação e desgosto, sobre a condição de "brasileiro" do infeliz protagonista do infelicíssimo episódio da escultura danificada de "São Miguel Arcanjo". Ei-la:
Quando, em 2013, se procedeu à renovação do Restaurante/Cafetaria do Museu, libertou-se a janela panorâmica do uso indigno que até então lhe fora dado: o de depósito dos tabuleiros acabados de utilizar, pejados dos restos amontoados das múltiplas refeições, visíveis tanto de dentro (recebendo os visitantes à entrada), como de fora, onde serviam de "ornamento" da esplanada - com isso se ganhando uma maravilhosa perspetiva interna sobre o esplêndido jardim. No vão, colocou-se um belo banco contemporâneo, estofado a pele.
Qual não é o espanto, porém, quando os acidentes se sucedem: com insistência, visitantes portadores de tabuleiros com o respetivo almoço, tentavam aceder ao jardim, não pela porta (ao lado), mas pela janela, galgando o banco como se de um degrau se tratasse - e esbarrando, obviamente, contra o vidro!!!
Ao termo de alguns dias, como os incidentes persistissem, decidiu-se colocar, frente à vidraça, uma oliveira, contrastadamente envasada a branco, por forma a assinalar, com esse obstáculo, a diferença de cotas e a inviabilidade desse acesso. Pois nem assim: persistentemente, foram vários os visitantes que insistiam em prosseguir, armados dos respetivos tabuleiros, pelo enviesado acesso, não obstante a porta adjacente e bem visível! E a situação só se resolveria com a colocação de uma fiada de autocolantes brancos, redondos, de lado a lado da vidraça...
:(
Serve isto para dizer que, numa casa aberta, cada pessoa que entra — seja qual for a sua idade, formação, origem — é um feixe enigmático de possibilidades comportamentais, tanto mais exponencial quanto maior for o grau de sedução pelo ambiente que a cerca. Por isso mesmo e a título de exemplo, os dispositivos destinados a eliminar os constrangimentos de acessibilidades aos portadores de limitações são, inversamente, ratoeiras para os que as não possuem e tendem a um comportamento confiante e incauto. Todos os responsáveis dos museus conhecem bem estes problemas.
Por seu turno, na sociedade da imagem que somos, as câmaras, de todo o tipo, são como uma segunda natureza, onde arquivamos a nossa memória visual. Potenciando, obviamente, comportamentos negligentes. Mas lutar contra isso é querer deter a própria marcha do tempo em que vivemos, refém da comunicação que todos praticamos. Por isso lhe chamamos "global".
O lastimável acidente que vitimou o belo "São Miguel Arcanjo" foi isso mesmo, muito simplesmente: um lastimável acidente, fruto de um comportamento obviamente inepto e incorreto — andar em marcha atrás num museu, onde, por natureza, nos devemos deslocar cuidadosamente (e não há dispositivos de proteção que prevejam tal) —, onde a origem do autor foi em absoluto irrelevante (sendo certo que houve diversos portugueses protagonizando o bizarro episódio do Restaurante/Cafetaria, que nem a oliveira alcançou deter...).
Estou seguro de que, tanto ou mais que todos nós, ficou ele desesperado com o efeito devastador do seu inadvertido gesto, como pôde ser testemunhado. Possa este triste caso servir a todos de advertência sobre os cuidados a ter ao circular em museus, entre obras sempre necessariamente frágeis. A TODOS.
António Filipe Pimentel - (artigo retirado do facebook)
