A raposa e o galo

A raposa e o galo

No tempo em que os animais falavam e as galinhas tinham dentes, e não havia aldrabões nem outros que tais, e que hoje são às milhentas, empoleirado numa árvore, um galo cantava.

Uma raposa, manhosa e ladina, que por ali passava, gritou-lhe a salvação e acrescentou:

- Grande novidade, compadre galo. Grande novidade!

- Que novidade?

- Pois, amigo e compadre, vai ser a primeira ave a sabê-la.

- Saia de aí, então, a novidade.

-Compadre, baixou um decreto do governo que manda acabar a guerra entre os animais e estabelecer a paz geral. Estou contentíssima, contentíssima, contentíssima. Nem calcula quanto. Desça, compadre, desça, que sinto um desejo enorme de o abraçar. Até que enfim; já não era sem tempo. Desça, desça...

- Comadre, esse decreto, de que fala, é do conhecimento de todos os animais? - perguntou o galo

- É óbvio; nem a ignorância desculpa o incumprimento da lei. Porque faz o compadre essa pergunta?

- É que vejo vir dali, dos lados de onde o sol nasce, alguns caçadores com uma pequena matilha...

A raposa, mal foi informada da aproximação dos podengos, galgos, perdigueiros e companhia limitada, sem dizer água vai, pôs-se ao fresco.

Zombeteiro, o galo começou a gritar-lhe:

- Mostra-lhes a lei! Mostra-lhe a lei! Mostra-lhes a lei!...

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Moral da história: uns armam-se em espertos e outros cantam de galo