Antinomias Rústicas

Antinomias Rústicas
I
Já as aulas tinham começado
e de outubro vinha o dia cinco,
para alunos um gostoso feriado;
sobre o dia, bem escrito e sucinto,
ordenou fazer o seu Mestre-Escola,
a redação, a trazer de volta na sacola,
feita no feriado, em casa de cada um,
mas, sem a ninguém pedir apoio algum.
II
Por espeito ao seu Mestre, nenhum,
houve aluno que a ajuda pediu a um
frade rezingão que era o seu tio,
que da Separação da Igreja do Estado
uma lei naquele dia o tinha saneado.
Este uma violenta catilinária redigiu,
mandando-o escrever: “os excomungados
dos republicanos serão sempre odiados,
merecem sofrer em vida, por seus pecados,
etc., etc. e tal,”, e conclui tu a dizer mal,
no fim, vais concluir com o conceito moral:
“O dia cinco de outubro foi e é pecado mortal.””

III
Como o aluno já tinha feito a Catequese,
tinha muitos receios dos pecados mortais,
fugiu, e assim que chegou à casa dos pais,
a tremer como varas verdes, com enurese,
vai ter com o Avô, bigodaça e má catadura,
para lhe emendar a redação naquele final;
o Avô sem saber quem a fez, pobre criatura,
aquela enormidade, uma grande porcaria
pelo conteúdo devia ser de “rato de sacristia",
alguém ligado, mas não fora o Padre Cura.
IV
-Vais pedir a um velho republicano imparcial,
para te fazer a redação, sem conceito moral.
Como o apelido de Sérgio de irmãos era igual,
um, o “Pólvora Seca”, orgulhoso de metralha boa,
para fazer bombas, em sua casa, lá no fim da rua,
outro, o “Bombista” que ia deitá-las em Lisboa,
que rebentavam nas ruas vazias, noites sem Lua;
– ao “Bombista”, grande intelectual e homem teso,
deitava tanto panfletos, como bombas e ficava ileso,
pede-lhe esta redação, o professor vai gostar imenso!
Sua mãe, Avô e Professor, não eram do mesmo lado,
deu uma virada na redação e o filho não foi castigado.

(in,Trautos de Miranda de Joaquim de Miranda. Ed.MinervaCoimbra)

Edgard Panão