As Portas Que Abril Abriu
Há mais de 20 anos eu escrevi estes versos, talvez sem pensar que eles seriam já uma premonição dos dias de hoje.!....
Se o Povo se deixou adormecer não tenho a certeza, mas vencido está a ser e, não sei o que ainda haverá para comemorar do 25 de Abril…. Ao olharmos para o desumanismo a insensibilidade e o calculismo com que problemas sociais, problemas que mexem com vidas de pessoas que se afundam, nem a Esperança no Futuro nos é permitida! E já não só os monopólios que mandam em nós! É a Europa, a alta Finança e todos os interesses estratégicos. As pessoas, os povos, sobretudo os mais pobres, são descartáveis, como pratos e copos de papel!…
As Portas Que Abril Abriu
Das portas que Abril abriu
Todas estão ameaçadas
Até mesmo a Liberdade
Se encontra esfarrapada
A Paz
O Pão
Saúde
Habitação
Trabalho
Educação
Eram as palavras gritadas
Nos dias de Revolução
Da Paz ... será aquela
Que a NATO nos impuser
Pois perdemos a Liberdade
De escolher o que se quer
E que dizer da Liberdade
Daqueles que têm fome
Que trazem os dentes ferrados
No Pão que ninguém mais come?
Na saúde, a Liberdade
Vai p’ra quem tenha dinheiro
Poder tratar-se “em privado”
No País ou no Estrangeiro!...
Do Trabalho ... de tão incerto
Tão precário e inseguro
Fica-se sem a Liberdade
De programar o Futuro.
“Da educação para todos”
Fracassou a Liberdade
Do livre acesso, sem logros
A iguais oportunidades.
E do direito à Habitação
Que Liberdade tão fraca!...
Junto à rica mansão
O pobre bairro da lata.
Do Mito da Igualdade
As diferenças são maiores
Dos pobres aos “instalados”
Até aos grandes senhores.
Abaixo os monopólios
Clamávamos entusiasmados
Mas de novo mandam em nós
Os de cá e os importados.
E o povo não unido
Se se deixa adormecer
Voltará a ser vencido
Sem sequer se aperceber!!!...
Pois da riqueza do país
Que é um bolo e é só um
Para poucos é quase tudo
E p’ra muitos quase nenhum.
Maria Prazeres Quintas
Coimbra, 1995
