Boa vaca
Boa vaca
A Madre Superiora de uma congregação irlandesa, com os seus 96 anos bem vividos, estava no seu leito à espera que a moira maldita, Átropos, chegasse.
À sua volta, delicadas e meigas, tentavam tornar-lhe cómoda a viagem sem regresso.
Deram-lhe leite quentinho, bebeu um golito e não quis mais. Triste, confusa, uma monja levou para a cozinha o copo de leite. Recordou-se, nesse momento - mais um momento... - que o padre-confessor lhe havia oferecido uma garrafa de bom whisky pelo Natal. Apiedada, pôs no leite sobrante, ainda no copo, uma boa dose da tão pecadora quão gostosa bebida.
Voltou ao leito da madre superiora e, afável, gentil, carinhosa, aproximou-lhe o copo da boca de lábios já roxeados. A custo, muito a custo, a madre superiora abriu um pouquinho a boca, bebendo um golinho do agora desfastidioso, depois outro e, antes que as monjas se dessem conta, bebeu tudo até à última gota.
Agradadas, atentas ao ligeiro milagre expresso num muito ténue e gostoso sorriso, as freiras, jovens e menos jovens, pediram:
- Madre, por favor, antes de ir ter com Deus, dê-nos a sua bênção e uma última palavra de sabedoria e consolação.
Com um último esforço, erguendo ligeiramente a cabeça, mais soprado que sussurrado, disse a madre:
- NÃO VENDAM ESSA VACA!
