Cartas verdadeiras de Camilo Castelo Branco
Meu presado Am.0
Se fôr capaz de ler esta carta sem se rir, está V. Ex.cia á prova do humorismo indigena.
Os meus medicos, suspeitosos de que as m.as pernas vão paralysar, mandam-me dar passeios a cavallo.
Eu tenho um, como recordação de bons tempos; mas já não me atrevo a montal-o. Aconselharam me a equitação em burro, pacifico, sem manhas, nem erothismos mto violentos. É impossivel encontrar no Minho um burro em taes condiçoens; por que, alguns que ainda existem, são abbades. Mandaram-me procural-o no campo de Coimbra, onde permanece ainda a raça do burro espirituoso e meio academico da Mealhada e dos Fornos.
Lido isto. V. Ex.cia encarrega um dos seus carreiros de me comprar um jumento, nas condiçoens therapeuticas acima referidas – burro que não exceda 6 ou 7 libras. Apalavrado que esteja, envio a V. Ex.cia a qta que me designar, e o burro vem pa Famalicão, tomar pte nas minhas contemplaçoens bucolicas por estas montanhas.
Pergunta-me agora V. Excia em que ponto da carta lhe cumpria rir-se? É na estouvanice de o ir distrahir das suas leituras pedindo-lhe que me compre um burro.
Vou ler o seu livrinho, na certeza de que encontro novidades.
Peço-lhe a finesa de depor aos pés de sua Exma Esposa os meus respeitos.
De V. Ex.
Continuação das cartas nos próximos números
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