Cartas verdadeiras de Camilo Castelo Branco

As cartas, dirigidas a Adelino das Neves e Melo, amigo de longa data e residente em Coimbra, foram publicadas pela primeira vez por J. M. Teixeira de Carvalho em 1922. Famosas desde então têm conhecido diversas edições.

 Meu presado Am.0

Se fôr capaz de ler esta carta sem se rir, está V. Ex.cia á prova do humorismo indigena.

Os meus medicos, suspeitosos de que as m.as pernas vão paralysar, mandam-me dar passeios a cavallo.

Eu tenho um, como recordação de bons tempos; mas já não me atrevo a montal-o. Aconselharam me a equitação em burro, pacifico, sem manhas, nem erothismos mto violentos. É impossivel encontrar no Minho um burro em taes condiçoens; por que, alguns que ainda existem, são abbades. Mandaram-me procural-o no campo de Coimbra, onde permanece ainda a raça do burro espirituoso e meio academico da Mealhada e dos Fornos.

Lido isto. V. Ex.cia encarrega um dos seus carreiros de me comprar um jumento, nas condiçoens therapeuticas acima referidas – burro que não exceda 6 ou 7 libras. Apalavrado que esteja, envio a V. Ex.cia a qta que me designar, e o burro vem pa Famalicão, tomar pte nas minhas contemplaçoens bucolicas por estas montanhas.

Pergunta-me agora V. Excia em que ponto da carta lhe cumpria rir-se? É na estouvanice de o ir distrahir das suas leituras pedindo-lhe que me compre um burro.

Vou ler o seu livrinho, na certeza de que encontro novidades.

Peço-lhe a finesa de depor aos pés de sua Exma Esposa os meus respeitos.

De V. Ex.

Continuação das cartas nos próximos números

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