Conto sem sorrisos nem risos
Com muita sorte
O meu amigo Casaleiro, homem vivido e bem-disposto, que percorreu meio país no desempenho exemplar das suas funções, tem sempre muitas histórias para contar. Verídicas e interessantes, que é o que importa.
E contou-nos, a mim e ao resto do grupo, durante o repasto sorrido do almoço de uma segunda-feira.
Dentro da equipa de trabalho que chefiava, havia o Tó Gago, pessoa dedicada ao trabalho, optimista para além do razoável. Inclusive, a sua gaguez não o inferiorizava ante nenhum colega, homem ou mulher.
E se era gago!… Não era um tatibitates qualquer, mas um sim um tartamudo de se lhe tirar o chapéu. Creio mesmo, pelo que se contou à mesa, que era mesmo bem mais gago que aquela rapariguinha que, quando o namorado começou a avançar, antes de concluir o “não sou deeeesssas…” já tinha deixado de o ser.
Um dia, risonho, chega ao pé do amigo e diz-lhe:
- Sou um homem com muiiiitaaaaa sooorteee”. Vou ser transferido para Lisboa, para os serviços internos…
Isto, claro, com toda a demora de um gago.
- E a tua mulher? – perguntaram-lhe. Fica por cá?
- Nããããooo. Também vaaiii…
E foi.
Passaram-se uns tempos. E um dos amigos, cujo nome me acanho de dizer, foi à sede da empresa.
Havia uma reunião e os dois encontraram-se. Conversa puxa conversa, coisas contam-se atrás de coisas, um copo que tem de se beber num bar lá bem para diante, “vaamooossss no meu caaarroo” e lá foram buscar a viatura
Um bólide: um Audi último modelo.
- Ena pá! Que grande carro! A vida está correr-te bem!
- Sim, sim… Sou um homemm com muiitaaa muiitaaa sorte; muuuiita sorte mesmo”.
A minha mulher toma conta das crianças de uma família muito rica, mesmo muito rica, e ganha muito dinheiro… Muuiiitooo didinheieiro mesmo. Sou um homem com muimuittataaa sorte mesmo.
Uns copos, uns abraços, e um até à próxima.
Continua um dia destes…
