Da força da gravidade à gravidez à força

Da força da gravidade à gravidez à força 

Só não digo que me lembro como se fosse hoje, porque naquela altura doeu; e hoje´, não há qualquer dor, nem mesmo psicológica: apenas recordações...

Parti um braço. Num treino de basquetebol, no campo do ACM. Ia ser jogada final. E foi., sem ser concluída. Disputei uma bola lá no alto; o “adversário” tinha o dobro da minha largura. Chocámos. E a gravidade atraiu-me. Parti um braço ao apalpar o chão.

Hospital, ainda o velho, talas colocadas.

No dia seguinte, RX no consultório do dr. Moura Relvas e ida para a clínica dos Olivais juntinha às bombas de gasolina. Braço engessado, que sendo o esquerdo e eu dextro, me permitiu continuar a trabalhar com a vantagem de servir de pisa-papéis.

Passado um mês, novo RX e outra ida à clínica para mostrar a evolução da “doença”.

Enquanto esperava, e conversava com o chefe dos enfermeiros, apareceram dois assistentes – um deles amigo - do Professor que ia consultar. Palavra para aqui, palavra para acoli, que tal está isso, e ... a Académica...

Tinha de ser. Ora diz um, o meu amigo (mais tarde, tal como o outro, afamado cirurgião), deixe lá ver as radiografias.

Olhadas, perscrutadas, comparadas:

-Ah! Isto evoluiu bem. Ora veja. E apontava para uma mancha no acetato, celuloide ou lá como se chama àquele material...

Rimo-nos. Eu, e o enfermeiro:

- Ó sr. doutor, olhe que essa é a primeira radiografia...

Rimo-nos os quatro. Santa ingenuidade no meio da sabedoria.

O que tem isto a ver com a gravidez? Claro que nada. Ou melhor, tudo.

 Ou seja:

Na pretérita 2.* feira, dia 5 deste mês que escorre a alta velocidade, Em Setúbal, num quarto do Hotel Bonfim – um nome a reter pelas mulheres que não conseguem engravidar – uma mulher que não sabia estar grávida, deu à luz uma criança, ou dito de outra maneira, uma criança fez agri se espanto os olhões de uma mulher que não sabia que andava grávida,

Não acredito que a criança tenha aparecido por obra e graça do espírito santo, mas lá que os pais – se é que a ditinha não é apenas fruto da natureza – não sabiam da gravidez parece ser ponto assente.

O casal, residente no concelho de Mafra, acreditava – há gente que ainda acredita no papão e no pai natal – que o inchaço cada vez maior da barriga da mulher se devia a um problema nos ovários. Aliás, este entendimento saía reforçado com a análise de uma ecografia em que a ginecologista detectara uma deformação ou mal formação ou coisa (a)parecida.

Talvez farta de brincar ao esconde-esconde, e ao olhar clínico da ginecologista, a criança acabou por aparecer à mãe, só, já que o pai fora, no entretanto, buscar uma torrada para a mulher.

Mesmo sem graça, ri-me ao ler a notícia. Ri-me da ginecologista. Pode ser que melhore, que, diz-se, a criança e a mãe estão bem e de saúde; só o pai é que está com dor de cabeça.