Trapaças & Ficções – Cartas Abertas (“Tomo I”)

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« … Exma. Senhora Dr.ª e Ministra com a tutela da Saúde.

Antes de tudo, gostaria de questioná-la: alguma vez teve problemas de Saúde que a conduziram à necessidade de ter de se encontrar de “baixa”?

[Aguardo que não. Não desejo aos outros o que não auguro para mim e para aqueles a quem desejo bem. Que são, face ao meu simpático carácter, muitos.]

Penso que saberá, ou terá Alguém no seu Gabinete que saberá, o que é o SVIT. E penso que saberá, ou terá Alguém no seu Gabinete que saberá, o que é estar-se de “baixa”. E penso que saberá, ou terá Alguém no seu Gabinete que saberá, o que é estar-se de “baixa” de uma forma forjada ou não. E penso que saberá, ou terá Alguém no seu Gabinete que saberá, o que acarreta ao “ordenado” de um utente estar-se de “baixa”. E penso que saberá, ou terá Alguém no seu Gabinete que saberá, o que é a Saúde e a falta dela. E, principalmente, o que a falta dela pode acarretar.

Caso não saiba, o que não me surpreenderá

[Suas Excelências os Ministros do “seu” Governo, e os de todos, alegam com frequência desconhecimento total sobre os “problemas” que de uma forma clara, material e inequívoca, afectam ou envolvem as “suas” tutelas!]

SVIT é a nomenclatura dada ao Serviço de Verificação de Incapacidade Temporária. Todos os portugueses que estão de “baixa” não forjada, questionam-se sobre a isenção do SVIT. E, é minha convicção, a maioria tem razões de queixa do SVIT. Investigue e documente-se, se fizer o favor, Exma. Sr.ª Ministra da Saúde.

Não obstante o anteriormente explanado, saiba V.ª Excelência que, por mera infelicidade, a minha Saúde não vai bem. E que, por isso, me encontro de “baixa”. Como o poderão atestar as coronariografias a que me submeti nas derradeiras décadas. Em consequência de vários enfartes do miocárdio. Poderei enviar-lhe todos os relatórios, para sua análise ou de “Alguém” (conhecedor do assunto) em representação do seu Ministério, atestados por cardiologistas de unidades hospitalares do Estado. Relatórios pormenorizados. Poderá lê-los, se é que lê algo sobre a real Saúde dos cidadãos que contribuem, com esforço, para a remuneração do seu cargo, cargo que deverá exercer com isenção e, principalmente, com zelo e em defesa de quem tem “problemas”, comprovados, de Saúde. Foi para isso que a nomearam – assim o interpreto. Suponho que não foi nomeada por mera remissão a questões familiares. Ou a conhecimentos partidários.

[Parto do princípio que é competente e devido a tal foi nomeada. Sem enrascadas. E que jamais aceitaria um cargo ministerial apenas para fazer parte do curriculum…]

Pois, dizia eu, tenho uma patologia cardíaca, grave. E encontro-me de “baixa” em consequência de reenfarte do miocárdio, tudo originando intervenções que conduziram a três cateterismos. Não forjados. Não inventados para fugir à responsabilidade que tenho comigo própria em zelar pela minha Saúde. Foi um azar que o destino me ofertou, sem consulta e sem a minha anuência e, também, para me flagelar a remuneração mensal.

Estando de “baixa”, se é que é do seu conhecimento ou de Alguém da sua tutela, apenas aufiro uma parte da remuneração que o meu trabalho mal remunerado me proporciona. Ao contrário do seu: o seu trabalho é muito bem remunerado e tem regalias que eu não tenho e jamais terei, especialmente no que toca ao valor com que se ressarcirá a minha “Reforma” que, face à minha idade, não está prevista para breve – independentemente dos meus graves problemas de Saúde. Ao contrário, segundo consta, da sua. E dos seus congéneres nos ministérios.

Saiba V.ª Excelência que um destes dias me aconteceu algo de absolutamente reprovável, inefável até, e digno de um SVIT a necessitar da intervenção imediata de “Alguém Superior” vindo de sua parte, para com legitimidade “Fiscalizar e/ou Coordenar” a seriedade dos Peritos do SVIT!

Estando eu de “baixa”, saiba que recebi uma convocação para me apresentar a uma equipa de Peritos do SVIT, para confirmarem a veracidade do meu estado de Saúde e dos motivos por que me encontro de “baixa”. E, saiba, aí compareci acompanhada por documentação da responsabilidade do meu “Médico de Família”, a advogar os motivos dos “porquês” para me encontrar de “baixa”.

Para meu espanto, alegou um dos “Peritos” que me “atendeu” a seguir ao almoço - interpretei ser o responsável pela equipa -, que fazia falta um relatório de um cardiologista, para atestar sem impunidade o motivo por que me encontro de “baixa”! Aos “berros”! Com

[Por mera remissão ao meu conhecimento sobre os odores dos alambiques da zona que habito]

hálito absolutamente etílico!

Pois, saiba V.ª Excelência que não tenho cardiologista atribuído pelo Serviço Nacional de Saúde, nunca tive, apesar de ser cardíaca desde os meus longínquos dezoito anos de idade. E por aqui me fico.

Sem me parecer que seja relevante qualquer outro acréscimo ao assunto, aceite V.ª Excelência Sr.ª Ministra da Saúde, os meus respeitosos cumprimentos,

Atentamente …

PS: Seguirá Exposição pormenorizada sobre o meu caso e outros similares, ao seu cuidado, para o seu Ministério, bem como para o Gabinete de Sua Excelência o Sr. Presidente da República, e para o “Tribunal Europeu dos Direitos da Saúde dos Humanos” ... »

Jorge Sá

(Jorge Sá não respeita o AO90)