HOJE VOU A LISBOA: DECIDI NÃO PASSAR CARTUCHO AOS PODERES

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 Tenho de ir a Lisboa, depois do almoço, com dois empresários, para uma reunião com uma figura de prestígio de Moçambique, um amigo que estimo.

A reunião e, depois o jantar, será ali para as bandas de Belém.

Mas já decidi.

Passo a correr pela Avenida da Liberdade, pela Buenos Aires, pelos Largos do Rato e do Caldas, e por outras partes da Capital em que cheire a partidarismo. Este tipo de fumaça topa-se, assim como se assam sardinhas ou castanhas.

Sem parar, obrigando ao mesmo sentido de estar, o meu, o pessoal, também transitarei na Rua, frente à Assembleia da República.

Ainda tinha pensado ir visitar essa arena política, mas decidi abster-me, porque nenhum deputado me receberia sem prévia marcação de audiência. E às 6.as feiras pode haver deserto de presenças… E uma arena deserta não tem piada.

Em contrapartida, em Washington, em pleno Capitólio, acompanhado de uma amiga que estava a fazer um doutoramento e que tinha residência perto dessa Capital Política dos USA, fomos recebidos, depois de nos anunciarmos minutos antes, por um senador republicano.

Saudou-nos, quis saber quem éramos – eu, um simples turista; ela, actualmente com um cargo de destaque na Universidade de Coimbra, e por estar a frequentar uma outra Universidade ali próximo, acabou por interessar o representante desse partido americano. Fez-lhe perguntas, tentou perceber se tinha problemas, quis saber se estava a gostar da qualidade do ensino ministrado e, ainda, a interrogou sobre as condições de vida – segurança, transportes, limpeza, etc. (sendo certo que algumas áreas são da responsabilidade do município da zona, mas que podem ter uma intervenção do senador, junto desse Órgão Local) – numa atitude de serviço que acaba por robustecer a democracia daquele País.

Mas e continuando o meu raciocínio.

Como disse, o jantar será para os lados de Belém.

Estava disposto a visitar o nosso afável Presidente. Mas não teria agenda para me receber. Eu ? Um conimbricense de gema. Uma pessoa sem títulos. Um homem que passou, e até agora, pela vida moirejando e trabalhando com pinga de suor, ética, deontologia e sentido de serviço… Não, não haveria espaço nem tempo para ser recebido.

Aqui, no que toca à Presidência da República, ficará para a próxima. Bater-lhe-ei ao ferrolho, do portão, o cá de baixo, onde se encontra a guarda-de-honra…

Lisboa, onde tudo se levanta, se espreguiça, se sacode, se discursa, se crítica, se boceja, se aglutina com votos familiares, se ampara, se favorece, se reencontra depois da refega planetária para beber um copo e trincar uma bucha, se distribuem favores, se esparge a vida com dinheiros públicos e a altivez sobra… não tenho presunção de visitar quem quer que seja desses labirintos toscos e desaprumados do contexto da vida e das nossas vidas, a maioria de nós.

Portanto, decidi não passar cartucho aos poderes.

Gosto de ir a Lisboa, mas de voltar…de viver aqui, na Província.

Mas não sou Provinciano nem de atino nem de presença.

Lisboa é para passear e para dar lugares cativos a certos “empregados” dos poderes, principalmente ao político, partidário e financeiro.

Vou ali, a Lisboa, mas já volto. Até logo, amigos e companheiros…

Art by . Jaime Martins Barata

1947

António Barreiros

 

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