Marcelo: o melhor ministro de Costa

NiT.jpg

É simples de descrever estes anos de governação de António Costa: o Diabo nunca chegou. Quem esperava sentado que uma qualquer crise desse cabo da engenhosa e inovadora coligação que levou ao poder um partido que não ganhou as eleições, cometeu um enorme erro estratégico e até pagou por isso, que o diga Pedro Passos Coelho e também pode já colocar numa lápide Rui Rio, pois nem o seu espelho para o qual olha todos os dias acredita que ele ganhe as próximas legislativas. Sim, sem qualquer receio, posso escrever que a grande dúvida é se o PS alcança uma maioria absoluta e o PSD obtém o pior resultado de sempre.

Pode-se gostar ou não do estilo, mas António Costa tem uma sapiência inata de conhecer a natureza humana e como se gerem as coisas na política. Em 2015, o El Pais traçou-lhe um perfil no seu caderno “Ideas” que tinha por título «O prestidigitador». Sendo um jornal mais perto da área da esquerda democrática, o seu retrato foi pincelado de cores simpáticas. E uma parte estava assim escrita: «de como em 50 dias passou de estar na rua a ocupar o palácio de São Bento, é assunto excepcional ao alcance só de gente com super poderes ou de mestres do malabarismo, que é o caso. (…) Costa sentou-se à mesa com os comunistas depois de 40 anos de inimizade, deu abraços em Bruxelas e os Merrill Lynch do mundo também compraram o seu filme». Só um político mestre nos puzzles, como é um dos seus hobbies, e na arte das negociações e compromissos, como dita o seu passado, conseguiria esta proeza. Mas conseguiu-o. E essa sua destreza foi aprendida e consubstanciada nos anos com Jorge Sampaio em Lisboa, e mais ainda aquando da sua passagem pelos assuntos parlamentares no tempo do «homem que sabia o que queria para o País», como rezava o slogan, António Guterres. Depois, executou tudo que apreendeu quando liderou a capital e meteu num ápice no bolso Helena Roseta, «o Zé», Bloco de Esquerda e PCP. A dita geringonça em São Bento é só o clímax do seu talento.

Depois, teve inúmeras ajudas. Um ministro, Centeno, que foi o mago que trazia as boas notícias, sindicatos amigos e calados durante muito tempo, imprensa, que sempre soube trabalhar, muitas vezes servindo de seu fiel escudeiro, uma imensa capa que o protegeu dos pingos da chuva, um País narcotizado por futebol e por polémicas de vão de escada baseadas na espuma dos dias e que perdeu capacidade de reivindicação e ter causas mobilizadoras, tudo isso banalizou os problemas sérios que atravessou olimpicamente. A grave crise de Pedrógão, a ridícula ópera-bufa de Tancos, hospitais a sobreviverem no caos e falência do investimento público. A somar ainda uma oposição sem voz, desgarrada, ineficaz e sem capacidade política de marcar a agenda mediática e a hecatombe total do PSD é um sinistro sinal de como Costa teve a vida facilitada.

Vi Marques Mendes dizer na SIC que «o primeiro-ministro lida com tragédias de forma fria. Devia ter uma palavra de afecto, de humanidade, de solidariedade». Mas aqui entra em campo o seu melhor ministro. É que Portugal tem em Belém um campeão dos afectos e um paladino das “selfies” e dos abraços, chama-se Marcelo Rebelo de Sousa que tem sido um aliado fundamental nesta caminhada de mão dada para a reeleição de ambos. Quando se fizer com distância, que só a História proporciona, a análise deste período político, este Governo tem um rosto sagaz e que criou a percepção que havia mais dinheiro nos bolsos e tudo estava no melhor dos mundos, António Costa, e um ministro simpático, popular, com boa media, que distribuía todo o carinho do mundoaos portugueses nos momentos mais difíceis. Costa é um génio nas subtilezas da política mas deve muito a Marcelo. E o PS sempre soube recompensar os seus amigos.

Rui Calafate

O autor escreve segundo a antiga ortografia 

Imagens retiradas da net