Menos que zero ou grito de revolta

 

Por força do mando da bicharada, o país está a ser entregue aos estrangeiros, a quem se paga para ficarem com bens de elevado valor. O que é preciso deitar fora tudo o que dê dor de cabeça: os portugueses-povo são já imigrantes na sua terra queimada.

 Deixo os incêndios e ou um salto atrás, à  venda do Novo Banco — o que pode ter percebido pelo título, em parte roubado ao romance de Bret Easton Ellis. À semelhança do livro, que narra a vida crua e violenta de uma geração perdida, também o Novo Banco é uma história de destruição. De um banco que foi império e cujos despojos deverão ser hoje vendidos. Por um preço potencial que varia entre €333 milhões e menos que zero.

 

Confuso? Troquemos esta novela por miúdos.

 

4 de agosto de 2014, a resolução do BES injeta €4,9 mil milhões num banco de transição, batizado de Novo Banco. Depois de duas administrações e dois mil milhões de obrigações do Novo Banco que voltaram para o ex-BES, a maioria do banco (75%) vai ser vendida à Lone Star, por um valor simbólico. Em contrapartida, o fundo norte-americano compromete-se a recapitalizar a instituição em mil milhões de euros.

 

Assim se esfumaram quase €7 mil milhões. Como as administrações que por lá passaram eram competentes, e mesmo descontando a perda de valor que o escândalo causou, fica claro que a situação do antigo BES era muito mas muito pior do que se imaginava.

 

No momento zero, o da assinatura da escritura de venda, os 25% que sobram valem €333 milhões (segundo uma simples regra matemática, partindo do princípio que os outros 75% foram cedidos contra mil milhões de capital). No segundo seguinte podem não valer nada.

 

Como não se sabe quando serão vendidos esses 25%, nem quanto valerá o Novo Banco nessa altura, é tão fácil adivinhar o encaixe para o Fundo de Resolução como acertar no Euromilhões — estou a exagerar, já que a hipótese de ganhar este jogo é de 1 para 116 milhões, mas não deve andar muito longe.

 

E ainda falta saber todos os pormenores da venda, nomeadamente que garantias foram dadas aos vendedores.

 

Uma coisa é certa: a Lone Star não fez um mau negócio e protegeu os seus interesses até ao máximo. Se juntarmos a isso a degradação de valor que os bancos portugueses têm tido nos últimos anos, é fácil perceber que, potencialmente, aqueles 25% que sobraram valem muito pouco, ou nada. Até porque não deve haver muitos interessados naquela posição minoritária.

 

Uma última nota para a falta de conhecimento gritante, para não dizer ignorância, que reina sobre os custos para os cofres públicos da resolução do BES. Custos diretos para o contribuinte NÃO HÁ. O Estado injetou dinheiro no Fundo de Resolução em forma de um empréstimo que será pago pelo sistema financeiro ao longo de vários anos. Quem paga os custos da queda do BES são os acionistas de todos os outros bancos. O Estado, como acionista da CGD, também paga indiretamente. O que até não é muito comparado com a quantidade de perdas que alguns senhores causaram na CGD.

 

O homem tem a tendência natural para personificar o Destino, e para conceber misticamente o Nada absoluto, que o olha fixamente de cada tumba, como um lugar de paz eterna, como uma Cidade de Paz [city of peace, no original alemão], como Nirvana: como uma nova Jerusalém.

 

"E Deus enxugará todas as lágrimas dos olhos [dos homens], e não mais haverá morte, nem sofrimento, nem gritos, nem dor, porque as primeiras coisas terão passado." (Revelação de João, 21: 4)

 

Não se pode negar que a representação de um Deus Pai pessoal e amoroso cala mais fundo no coração humano, "essa coisa obstinada e pusilânime", que o destino abstracto, e que a representação de um Reino dos Céus, onde os indivíduos, sem necessidades e transfigurados, repousam felizes numa contemplação eterna, desperta um anelo mais poderoso do que o nada absoluto. Também aqui a filosofia imanente é indulgente e benigna. O importante continua a ser que o homem superou o mundo mediante o Saber. Que deixe o destino conhecido ser tal como é, ou lhe atribua de novo os traços de um Pai fiável; ou que deixe o nada absoluto como meta conhecida do mundo, ou o transforme num jardim de paz eterna, inundada de luz – isso carece completamente de importância. Quem quer interromper o inocente e inofensivo jogo da fantasia?

"Uma ilusão que me faz feliz/ vale bem uma verdade que me ate ao solo." (Wieland)

O sábio, porém, olha fixamente nos olhos e com alegria o Nada Absoluto."

Philipp Mainländer

Die Philosophie der Erlösung, 1876, p. 357-8.

José Costa Pinto