Comandos!
Somos um povo de Maria-vai-com-as-outras, seguidista e acagaçado.
A melhor homenagem que posso fazer ao meu falecido amigo Jaime Neves e aos, actualmente, vilipendiados Comandos, é publicar o texto aba.ixo da autoria de um conceituado advogado cujas palavra e honra ninguém põe em causa:
J.Q.
"Fui chamado a cumprir o serviço militar obrigatório, em Agosto de 1983, quando estava prestes a passar à reserva territorial. Na altura, estava a iniciar o meu estágio profissional e tinha dois filhos menores com 3 e 2 anos, respectivamente. No entanto, o grande número de objectores de consciência desse ano fez com que eu tivesse sido chamado, quando já não era previsível que fosse.
Face à minha situação familiar e profissional, toda a gente, excepto a minha família directa, me aconselhava a invocar também a objecção de consciência. Acontece que não está no meu ADN familiar fugir à assumpção das minhas obrigações por muito custosas que elas sejam. E apresentei-me na Escola Prática de Infantaria, em Mafra, no dia 15 de Agosto de 1983.
Cumpri o serviço militar obrigatório na Escola Prática de Infantaria, em Mafra (15/8/1983 a 15/12/1983), onde fui o 1.º Classificado do Curso de Oficiais Milicianos, na minha especialidade, e, no BIMec, em Santa Margarida (1984), onde comandei o pelotão de Morteiros Pesados, na Companhia de Apoio de Combate comandada pelo Capitão Santos, dos Comandos. [o nosso camarada, "8", Ferreira dos Santos]
O BIMec foi, no entanto, fundamental na minha formação. E num momento em que a "tropa fandanga" volta colocar em causa a "tropa", quero deixar aqui o meu testemunho de que o ano que passei no BIMec, extremamente duro, sob o comando do Capitão Santos, dos Comandos, foi mais importante na minha formação do que todos os anos que passei na escola e na universidade (duas licenciaturas e, a segunda, nunca a teria conseguido tirar, nas circunstâncias difíceis em que o consegui, se não tivesse servido no BIMec).
Na minha companhia, os oficiais distinguiam-se dos soldados por duas razões: nos exercícios, o oficial era o primeiro a fazê-los; nas refeições, o oficial era o último a ser servido. Este é um ensinamento para a vida. Foi no BIMec que aprendi a diferença entre mandar e comandar. À medida que se sobe na escala hierárquica, aumentam as obrigações e diminuem os direitos. Conheço muito poucos portugueses cientes desta diferença absolutamente essencial entre mandar e comandar: quem manda dá ordens; quem comanda dá o exemplo. Por isso, abundam por aí os chefes e faltam os líderes.
Já Camões se queixava disso ao rei D. Sebastião, no final do Canto X de “Os Lusíadas”: «Fazei, Senhor, que nunca os admirados/ Alemães, Galos, Ítalos e Ingleses,/ Possam dizer que são pera mandados,/ Mais que pera mandar, os Portugueses.» Ora, é precisamente isso que hoje toda a Europa (e não apenas os alemães, franceses, italianos e ingleses) pensa dos portugueses: somos melhores para ser mandados do que para mandar. Obrigado, meu Capitão!...
II
Há um ditado japonês de que eu gosto muito porque transcreve uma evidência da qual depende o sucesso das nações, sociedades e associações: "Quando duas pessoas pensam da mesma maneira, uma é dispensável." E o que se constata em Portugal é que, salvo raras excepções, quase toda a gente é dispensável na medida em que a esmagadora maioria pensa como o seu chefe, ou melhor, nem sequer pensa: limita-se a reproduzir, como um papagaio, o que diz o chefe.
E os chefes portugueses, cientes da sua mediocridade e da sua incompetência, odeiam pessoas inteligentes. É assim nos partidos, nas associações, nas repartições, nas escolas, nas famílias... Desde o berço, há todo um esforço da sociedade portuguesa na formatação do pensamento único, para que ninguém ouse dizer, em voz alta, aquilo que todos vêem: o Rei vai nu.
Como dizia Bertrand Russell, "o problema do mundo de hoje é que as pessoas inteligentes estão cheias de dúvidas, e as pessoas idiotas estão cheias de certezas." ... É, por isso, absolutamente natural que os nossos chefes, cheios de certezas, tenham horror às pessoas inteligentes."
Publicado por Santana-Maia Leonardo
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