VÍTIMA DE ABUSO NÃO TEM GÉNERO

Qualquer pessoa pode ser vítima de violência sexual, independentemente de características pessoais, do género, ou da orientação sexual; independentemente de terem ou não relações com o agressor, ou agressora. Mas será que há um tabu do estupro contra homens por mulheres?
A verdade é que a maior parte da comunicação coloca o género masculino no agressor dado que, segundo últimos estudos, as mulheres jovens ocupam o maior número de vítimas. Mas não será também discriminatório?
De acordo com as atualizações mais recentes do INE e análises da Nova SBE, os desenvolvimentos sobre a perceção e experiência de violência em Portugal são os seguintes: experiência de Violência (Dados 2025); atualmente, 46,8% das mulheres e 42,6% dos homens em Portugal reportam ter sofrido algum tipo de violência ao longo da vida adulta.
Um número de queixas muito próximos entre géneros.
O aumento de apoio é revelado pela Associação Portuguesa de Apoio à Vítima (APAV) que registou um aumento de 11% no número de mulheres apoiadas nos últimos três anos, sendo a maioria vítima de violência doméstica.
Em 2024, a PSP e a GNR receberam mais de 30.000 queixas por violência doméstica, mantendo-se em níveis muito elevados apesar de uma ligeira descida de 0,6% face a 2023.
A região do Alentejo é que regista uma proporção mais baixa (37,8%), contra 48,1% na Madeira, 46,9% nos Açores e 46,8% na Área Metropolitana de Lisboa.
A prevalência da violência é mais elevada entre a população mais escolarizada (49,4%), segundo a mesma fonte.
«Considerando somente a violência exercida sobre as mulheres, Portugal pertence ao grupo de países da União Europeia que apresenta, de um modo geral, proporções mais baixas de violência», de acordo com o INE.
Quando falamos de violência sexual contra homens e rapazes é comum que se faça a pergunta se as mulheres são capazes de abusar sexualmente de homens e rapazes, e a resposta é sim. Sabemos que as mulheres abusam sexualmente de meninos e homens, e também de meninas e de outras mulheres. Apesar de pouco falado é real.
De acordo com a associação de apoio à vítima “Quebrar o Silêncio”, os abusos sexuais são cometidos, na sua larga maioria, por homens. Os dados mostram que 84,5% dos abusadores são do sexo masculino, os restantes 14,5% eram mulheres. Houve também casos, diz a associação, de abusos feitos em contexto médico. Isto significa que foram cometidos “por exemplo, em consultas ou exames médicos, nos quais os profissionais usaram o seu estatuto e a sua posição de poder para abusar dos utentes”.
Independentemente das estatísticas e percentagens, o importante é que nenhuma vítima seja excluída, independentemente do sexo de quem abusa.
Os dados mais recentes da associação Quebrar o Silêncio, atualizados em Fevereiro de 2026, mostram um crescimento contínuo no número de homens que procuram apoio. Em 9 anos de atividade, a associação já apoiou um total de 978 homens e rapazes vítimas de violência sexual.
Em 2025 foram registados 283 pedidos de ajuda (o número anual mais elevado desde a fundação em 2017), dos quais 154 corresponderam a homens sobreviventes de violência sexual.
Em 2024 a associação recebeu 112 novos pedidos de apoio direto de homens e 50 de familiares/amigos, totalizando 830 ajudados em oito anos de trabalho até essa data.
Embora em 2023 a média fosse de 15 pedidos/mês, em 2025 a associação registou um aumento de 37% no volume global de solicitações comparativamente aos anos anteriores.
A verdadeira questão é que se foi criando a ideia que, quando se fala de violência sexual contra homens, fala-se apenas o que acontece na infância. Pelos diversos estudos começa a aparecer, cada vez mais situações de estupro contra homens adultos que são vítimas de abusos sexuais.
A associação destaca três tendências principais nos relatórios mais recentes de abuso, em 2025, onde 41% dos pedidos de ajuda era de idade adulta. A violência sexual ocorreu já na idade adulta, desmontando o mito de que este crime apenas atinge crianças.
A idade média dos homens que pedem ajuda desceu de 37 para 31 anos em 2024, indicando que os sobreviventes estão a procurar apoio mais cedo.E, contrariamente aos estereótipos, a maioria dos homens que procura a associação Quebrar o Silêncio identifica-se como heterossexual.
A complexidade está em que muitas vezes, a vítima do sexo masculino e adulto, nem sequer se consegue identificar como abusado sexualmente. Por isso tem vergonha de denunciar a situação, porque têm receio de falar sobre estas questões, porque existe a ideia que o homem não pode ser vítima de violência sexual, de que o homem a sério tem de resolver esses seus problemas.
Neste registo, para denunciar o estupro contra homens adultos, está, também, o movimento #MeTooGarcons (iniciado em França), na rede social do Tik Tok, onde um dos homens teve a coragem de colocar a sua história a publico.
Pierre (nome alterado), 33 anos, explicou que devia ter contado esta história centenas de vezes em dez anos. “Aconteceu comigo uma coisa muito maluca”, iniciava ele quando contava o que lhe tinha acontecido. Muitas das pessoa que o ouviam riam e alguns homens diziam que o invejavam. A história referia-se a uma mulher “completamente maluca” que o forçou a penetrá-la depois de uma felação forçada, quando ele tinha 19 anos.
Na altura, Pierre era então “barmen” em Toulouse, num ambiente onde podemos tomar “shots” durante o serviço com os clientes. Pierre com as suas “tatuagens, cabelos castanhos desgrenhados e anéis de prata em todos os dedos”, acabava por se sentir um pouco como uma estrela de “rock” com grupos de mulheres a desejarem-no e implorem ao segurança para deixá-las entrar no bar para uma última bebida com o “barman”. O jovem era fiel à namorada da época.
Porém uma noite, durante uma festa na casa de uma amiga, uma mulher da sua idade queixa-se de não ter parceiro sexual e Pierre conta que “devo ter enviado sinais errados pois ela elogiou-me e depois beijou-me sem me dar hipótese de escapar ”, contou na rede social. Acabou por não se conseguir livrar do ataque. Mais tarde, naquela mesma noite, ela pegou-o pelo “colarinho e olhou-me nos olhos, e disse: agora vamos f(...). Enquanto ela me empurrou para uma sala separada.” Pierre considerou que estava numa situação “sem pensar bem no que estava a acontecer.” Depois continuou a contar que “ela bloqueia a porta com uma cómoda, baixa as minhas calças e começa a praticar, comigo, sexo oral.”
Continua a sua história: “Ela levanta o vestido, fica de quatro e é mesmo ela que se penetra. Tive uma ereção, embora não quisesse nada. Deve ter durado uns cinco ou dez minutos, não me lembro bem. Eu estava lá sem estar ”, conta Pierre, descrevendo um momento de dissociação que muitas vítimas de agressão sexual evocam.
Esta situação desmonta uma ideia que está a ser propagada de que as vítimas têm um estereótipo. Quando na realidade vítima é apenas ‘vítima’ sem género, credo, preferência sexual, idade, formação ou qualquer outra característica.
JAG
20-03-2026
