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O CONDE DE AGUILAR

Era certo e sabido. Cada vez que vínhamos a Lisboa à boleia para no dia seguinte à tarde assistirmos a um encontro de futebol entre um dos grandes e a Académica, percorríamos a via sacra que nos habituáramos a conceber, na nossa não assumida ignorância e provincianismo, perdidos na grande e feérica cidade capital.


As capas esvoaçando, calcorreávamos a Av. da Liberdade, o Rossio, a Praça da Figueira, a Rua Augusta e o Terreiro do Paço.Bebíamos uma "imperial" no Café Martinho. Criticávamos a falta de qualidade da cerveja comparando-a com a Topázio de Coimbra que era de longe a melhor de todas...


Petiscávamos no Comibebe, sorvíamos um "eduardinho" na Rua do Coliseu, uma "ginginha com elas" no Largo de S. Domingos e um "pirata" nos Restauradores.A explosiva mistura não tardava a produzir os seus efeitos.


A grande apoteose estava porém reservada para o Ritz Club perto do elevador da Glória.Ali encontraríamos as mais belas mulheres, algumas de cerrado sotaque espanholado, que nos davam a sensação de com elas dançarmos lascivamente na cosmopolita Madrid.
Naquele antro de perdição, por mais do que uma vez vi actuar altas horas da madrugada, o ilusionista Conde de Aguilar. 
Estava já na sua curva artística descendente depois de anos e anos em que chegou a atingir o apogeu com espectáculos em Paris, Madrid, Coliseu de Lisboa... 
Vestia-se com capa de cetim negro, chapéu alto, papillon, a indispensável varinha mágica e um lenço branco desdobrado, na mão que a segurava.Fazia os truques mais comuns, com cartas, flores, lenços, bolas, pombos....


Todos culminavam com a frase que era a sua preferida: - Isto é extraóooordinário, martelando as sílabas e acentuando prolongadamente o “óooo”...
Isto não é magia, meus Senhores, isto é ilusionismo. 
Em tudo há um truque, uma ilusão...


Deixava para o fim aquele que ele considerava o mais espectacular: fazer sair um coelho da sua cartola que previamente mostrava completamente vazia, Elucidando: - Esta cartola é como um ventre materno. Das suas entranhas vai sair a vida que a varinha vai gerar!


Mas uma noite houve em que o Conde de Aguilar não conseguia fazer o coelho aparecer. Ele bem enfiava a varinha na cartola, tentando reproduzir o mistério da criação, mas nada!...


Alguém da assistência coimbrã vendo a dificuldade do Conde de Aguilar, “ajudou-o”:- Ó Conde, você já meteu a sua vara na cartola várias vezes... Agora tem de esperar uns nove meses, não sabia disso?

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