Saudade


1-Saudade
I
Como a neve
é fria e leve,
mas se aquece,
contrariamente,
não desaparece,
fica na mente;
é como bolha,
que rebente,
que nos molha,
ela nos tolhe,
apenas, se olhe,
e só se pense
naquele ente,
e se dispense
de outro pensar
e doutro olhar.
II
Uma evocação
dum indivíduo
de gato ou cão
ou o tempo ido,
para o coração
é recordação,
que pode moer,
também, doer
ou mesmo boa,
não é saudade;
pois, na verdade,
saudade é senão,
uma recordação
dum ente pessoa
  III
Um fogo quente,
sempre a arder,
não se pode ver,
mas que se sente,
que nos consome,
soidades de gente.
IV
Qual lágrima
feita de água
que se renova
e nos afoga;
mágoa de dor,
de queixume,
qual perfume,
com um odor
cuja essência
é a ausência.
V
Cinza de Amor
arde inconsciente,
na nossa mente;
se breve calor
a reacende,
traz ao coração
aquela emoção
que não esquece,
nem desaparece,
reacenda ou não!

Edgard Panão


(in, Campos de Arruda. Ed.MinervaCoimbra)