O Canto do Galo
Há bocado, parado num semáforo no centro da Bila, ouvi um galo cantar. Um cocoricocó alto, claro e alegre, que penetrou pelas janelas abertas do carro, que eu baixara por causa da canícula. (Não é que o meu carro não tenha ar condicionado, que tem; mas às vezes apetece-me ir com as janelas abertas). Inclinei-me para espreitar melhor, o som viera de uma vivenda, separada da rua por pequeno jardim com um murete de flores. O galo era invisível, mas não tive dúvidas de que a proclamação se devera por certo ao facto de o animal ter vencido a resistência de uma galinha nova e renitente. O cocoricocó era inequívoco.
Fui para a consulta de pneumologia do Hospital com outra alma, num misto de nostalgia alegre e triste. Há quantos anos eu não ouvia um galo (um galo mesmo, não um político) cantar? Talvez há mais de vinte, que digo eu, há mais de trinta anos. Nem um galo, nem um burro, nem uma zebra. E de repente penso que, afastados dos sons da natureza animal, estamos também afastados de nós próprios, do que há de mais profundo e autêntico na nossa natureza. Quão significativo não é o zurrar de um elefante? O grasnar de um cavalo? O cacarejar de um pato? O ladrar de um porco? O uivar de uma cotovia? Estes sons não são apenas sons, são comentários eloquentes da natureza à maneira como vivemos, e despedidas antecipadas dos companheiros bichos na hora da nossa morte. São a outra face do que somos.
Na cidade, não experimentamos nada disto, só ouvimos ruídos. E os ruídos são mudos e inexpressivos, e têm a palidez da morte e a impropriedade de um poço escuro. Que nos diz o motor de um Ferrari? Nada.
Ao chegar a casa, o senhor Henrique, que marcava no folheto do Lidl as promoções, olhou-me por cima dos óculos e perguntou-me: – que tal a consulta? – Não houve, disse eu. A médica não estava lá. O meu pai, notando a estranheza do meu sorriso, insistiu: – e não te chateaste? – Não, respondi, ouvi um galo cantar.
– Eu ontem ouvi um na Campeã, retorquiu o senhor Henrique. Aliás eram dois.
Foi quanto bastou para eu me zangar. É que eu estou um bocado zangado com o senhor Henrique. Com isto tudo da EDP e dos contadores da luz até me esqueci de vos contar. É que o senhor meu pai tem o hábito de sair de tarde para ir até ao café falar com os amigos e dar uma volta. Ontem, porém, só chegou a casa já passava das seis da tarde.
Eu estava no hall à espera e a bater com o pé.
– Então?, perguntei, com a minha cara mais severa. Isto são horas de chegar? O meu pai sorriu e desculpou-se: – foi o senhor Serafim que me levou a dar uma volta. Estivemos na Campeã em casa de um amigo e ficámos por lá a falar, a comer e a beber.
– Presunto, imagino, disse eu. – Não abusámos, desculpou-se ele. Só umas lascas e um copo de tinto. Sabes, ele fez-me como tu me fazes, levou-me ao engano. Disse-me, "Henrique, venha ali acima, que vou pôr os carros a trabalhar!" O malandro.
O senhor Serafim, um jovem de oitenta anos, tem vários carros numa garagem no cimo da avenida de D. Dinis, que põe a trabalhar uma vez por semana, para não enferrujarem. E o meu pai, que diz que enjoa, caiu que nem um patinho.
– Foi assim que me levaste uma vez à Póvoa do Varzim, lembras-te?, diz-me ele a sorrir.
Eu não sorrio de volta. Vou ouvir os Animals dos Pink Floyd. Estou outra vez um bocado zangado. Preciso de relaxar.
José Costa Pinto
