O CASCO TINTO

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Desarranchado, o cadete Fernando Meireles, estava dispensado de pernoitar no Convento, ficando obrigado, claro, a apresentar-se na formatura às 8 horas da manhã, na parada do quartel.

Tinha alugado, a meias com o camarada Zé Megre, um quarto num primeiro andar da correnteza de casas fronteira à Escola Prática de Infantaria.

Eram dos poucos, de entre as centenas de cadetes, que usufruiam desse privilégio, obtido por influência e empenho do pai do Megre, conterrâneo e amigo de longa data do Comandante da Escola.

O Meireles, a quem alcunharam assertivamente de Casco Tinto, vociferava todas as manhãs quando abria a janela do quarto e se deparava com o desmedido aglomerado de pedra mesmo em frente.

Costumava invectivar D.João V, que a conselho de um frade prometeu construir este Convento se, finalmente sua mulher D. Ana de Austria, lhe desse um filho herdeiro e sucessor.

Na verdade, estavam casados há 3 anos e a consorte ainda não tinha emprenhado.

Resmungava o Meireles:

- Tivesse o João introduzido o real órgão genital nas entranhas da Ana e não teria sido necessário fazer a promessa que o frade asseverava ser imprescindível e garantida.

E acrescentava:

- O que não confessava, é que o mulherengo Rei já tinha à data quatro filhos bastardos e uma conspícua relação com a Madre Paula Silva do Convento de Odivelas.

E, imparável, concluía:

- Por causa disso, temos agora que amargar neste monstro de pedra as passas do Algarve !

...... 

Ao fim daquela 5ª feira, finda a instrução, apressou-se a ir até à Ericeira no Ford Capri do Zé Megre. Jantaram no Pinta uma mariscada bem regada, e depois foram até à Discoteca O Ouriço onde emborcaram uns whiskies com duas turistas inglesas que já conheciam de noitadas anteriores. Por volta da meia noite, foram os quatro até à tasca do Caniço, em cuja cave costumava haver uma sessão de fado amador.

O Zé Lacrau, dono da tasca, cumprimentou-os efusivamente e encaminhou-os para o subterrâneo, onde já lhes tinha reservado a mesa do costume.

Por volta das duas da manhã, uns quatro jarros de vinho carrascão jaziam já vazios em cima da mesa. O Megre e as inglesas riam muito mas bebiam moderadamente. Mas o Meireles achava um desperdício irem-se embora sem esvaziarem os jarros e foi-se encarregando de fazer jus à sua alcunha.

Levaram as inglesas ao hotel e pelas 3 da madrugada, regressaram a Mafra, porque as 7 horas tinham que se levantar para irem para o Convento.

Às 7-30, o Megre, já pronto e fardado, berrava às orelhas do Casco Tinto para se levantar.

Se, em condições normais, com o bojo em pousio, quase era precisa uma grua para erguer da cama o Meireles, hoje a coisa estava mais difícil ainda, lastrado como viera da Ericeira e atestado de sarro pela fermentação do tinto da Adega Cooperativa da Merceana.

A custo lá conseguiu levar o Casco Tinto, em passo acelerado e quico à banda, a tempo de se incorporar na formatura.

O Tenente Moura, comandante do pelotão, ordenou com o seu vozeirão:

- Pelotão, firme!

- Sentido!

O Meireles, meio a dormir, despertou por instantes à ordem do tenente e rispostou, quase sussurrando:

- Diga!?

Imagem retirada da net

Rui Felicio