O ovo de Colombo
O ovo de Colombo
Não se pense que Colombo pôs um ovo, nada disso; nem tão pouco que é algum estabelecimento do centro comercial alfacinha com nome do dito que tem algum ovo especial para venda, um ovo de víbora ou de caranguejo, sabe-se lá.
Colombo, melhor, Cristóvão Colombo é aquele navegante de que a história fala, que descobriu a América em 1492, uns anos antes de Pedro Álvares Cabral ter achado o Brasil, e cuja identidade continua baralhada, com uns a dizer que era genovês de Génova e não genovês do caraças, e outros a afirmarem a sete pés e meio que não, que era portuguesinho da costa, nado e criado em Cuba no Alentejo.
Pois este Colombo, que à custa da rainha de Espanha –que abria os cordões à bolsa para as suas passeatas marítimas - andava a espionar terras para o nosso rei D. João II, foi um dia convidado para jantar em casa do cardeal Mendoza, confidente, confessor e conselheiro dos Reis Católicos, isto é, um senhor todo poderoso da época, ou, na linguagem hodierna, o dono daquilo tudo.
À mesa, não se sabe bem se em jeito de graça se de admiração, o cardeal proferiu – na altura talvez ainda se não tivesse descoberto a palavra proferir pelo que a podem substituir por fez – um discurso bué de elogioso para o afoito navegador dos quatro costados.
Alguns dos convivas, com dor de cotovelo da glória não vã do intrépido marinheiro de salsas águas, e doces quando aportava a Sevilha, não conseguiam dissimular a sua irritação por tais elogios.
- Eminentíssimo cardeal, diz um deles, o caminho do Novo-Mundo estava aberto a toda a gente; o oceano não tinha portinholas nem muros nem outras barreiras, e, sejamos sinceros, qualquer marinheiro lá poderia ter ido como foi aqui o Colombo.
- Claro, claro, Evidentemente, Pois, pois – ajudaram à missa os outros – qualquer teria feito outro tanto, e, sabe Deus – benzeram-se todos menos Colombo e o cardeal -, se não teriam feito melhor.
Modestamente – com aquela modéstia que lhe era peculiar – com ar de quem não dá confiança a garotos ou agarotados – melifluamente, responde o nauta:
- Sim, foi um acaso e nada mais. Fui atrás de uma sereia – veio mais tarde a descobrir-se que não era sereia mas um sirénio de peitos rechonchudos como o daquelas boazonas do jet8 alfacinha recheados de botox – e ela levou-me até lá. Há, todavia, mui ilustres senhores, coisas mais simples neste mundo que ninguém faz ou executa senão depois que as vê executar ou fazer aos outros...
Dirigindo-se a um dos fidalgos, o que maior indiferença mostrara em relação à sua façanha, ou êxito, ou descoberta – o leitor que escolha -, diz-lhe:
- Aqui tem este ovo; veja vossa excelência – e ao dizer excelência pensava em insolência – se é capaz de descobrir a maneira de o suster aprumado em cima da mesa e posto sobre uma das extremidades, sem encosto de espécie alguma.
O fidalgo – filho da mãe pensava Colombo -, depois de várias tentativas com resultados catastróficos, desistiu da sua empresa, ou, em linguagem de hoje e do futuro, do que lhe tinha sido encomendado.
O conviva que o ladeava à esquerda – ainda não se tinha descoberto o caviar – não foi mais feliz.
O ovo passou assim de mão em mão, que todos deram à palmatória, afirmando que não havia, ou haveria, meio ou processo de o conseguir.
Com ar entre o sisudo e o sério, depois de olhar bem nos olhos – ou no focinho já não me recordo, que as reminiscências estão um tanto ou quanto diluídas – Colombo responde:
- Nada mais simples, ilustríssimos e elegantíssimos senhores a quem a fidalguia fez nobres.
Pega no ovo, bate na mesa com uma das extremidades, que se amolga, e pespega o ovo numa verticalidade perfeita – se fosse inclinada como a torre de Pisa o efeito era o mesmo – sobre o tampo da mesa, ainda que inicialmente tenha pensado colocar o ovo na lâmina da espada.
Ouviu-se um bruaá quase tão grande como quando um atleta da Académica falha um golo de baliza aberta, e diz um mais afoito manifestando desapontamento:
- Ah! Isso não é admiração nenhuma! Assim também nós fazíamos!
- Então por que não o fizeram? Entre nós há uma pequena diferença: eu fiz o que os senhores podiam ter feito.
Para desanuviar o ambiente, o cardeal deu uma gargalhada valente.
