Pequenos passos a caminho do exílio pedagógico

 

A professora Drª Eudóxia da Espetação era aquele tipo de professora dogmática que regia ao tempo, e a seu modo, uma disciplina fundamental para a formação intelectual de jovens que se destinavam ao Ensino Superior. Era considerada pelos alunos uma professora de Filosofia “assim-assim”, “nem era péssima demais, nem de menos”. Tinha “manhas de peripatética”; nas suas aulas andava para trás e para a frente, como se a sala de aula fosse o Jardim do Liceu, de Aristóteles ; não parava a perorar “filosofia feita do compêndio”, umas vezes, dos lados das carteiras, outras atrás, outras à frente; não parava nunca, nem para tirar dúvidas. Daí o seu “petit-nom” Corropio, Eudóxia Corropio, que só ela não tinha hipótese de descobrir, tal era o receio da sua pernóstica postura a lecionar! Mas, pior, era íntima do diretor que se encarregara de a selecionar para a escola com outros tantos professores com ele “arraçados”(termo impróprio usado pelos alunos mais liberais.)
Aluno pobre orgulhoso em querer promover-se pelo estudo, (que o liceu não era para pobres; havia para eles, a Escola Técnica Profissional), aluno que lhe parecesse que “pensava demais” ou aluno filho de político errado, mandava-os para as aulas da Drª Eudóxia que esta se encarregava de “lhes limpar o sarampo”(outra impropiedade de linguagem) e corrê-los da sua escola por si assumida como “a sagrada oficina das almas eleitas”. Todos os alunos eram avisados das “qualidades pedagógicas "do chefe quando, pela primeira vez, assomavam ao recreio, no intervalo das aulas. O jardineiro, um velhote leptossómico, muito simpático de nome e alcunha José Calado, porque, em voz quase impercetível, avisava todos os alunos que calcar a relva era um crime de “lesa-pedagogia” e desfiava conselhos aos alunos para poderem sair dali ilesos, com o Curso feito.
E estes chegavam à conclusão que trabalhador, professor ou empregado, que tivesse sido selecionado, pelo diretor. para a Escola, o único que não era faccioso, era o jardineiro, havia nele mais filosofia em seu coração amigo que na “cachimónia” (outra impropriedade juvenil) da Dr.ª Eudóxia Corrupio.
Num dia frio de Fevereiro, no dia da Senhora das Candeias da qual a professora era, e ninguém tinha nada com isso,fervorosa fiel devido ao seu excesso de zelo pelo “Sagrado” que há em tudo que existe, “desfecha” esta gloriosa perífrase na cabeça dos alunos de Filosofia, simultaneamente, transidos de frio e do receio do que ai viria!
- Se Platão e Aristóteles, ainda hoje, fossem vivos poderiam muito bem ser santos; referência aos factos de a filosofia do primeiro ser “cristianizada” por S. Agostinho (séc. IV D.C) e a do segundo, por S. Tomás de Aquino (séc. XIII D.C)
- Mas essa simples hipótese é um absurdo, disse-lhe sem pestanejar, nem pensar nas consequências, um aluno.
- Absurdo é a sua falta de respeito, Rua! ( entendido como a sala de animais!)
E limpe da sua cabecinha muitas “teias de aranha” que a mim não me engana! E digo-lhe que são desrespeitosas e que já estou a “ficar cheia”! Com as suas ideias avançadas, não, não vai muito longe! Vai ver! (Inimaginável vaticínio errado, como a seguir se verá!)
O aluno levantou-se da carteira, respeitosamente, e pretendeu esclarecer a Dr.ª Eudóxia que, sem milagres, não há santos; a seguir sentou-se, porque aquela “gíria canina”, por certo, não seria com ele. Por esta e por outras, mais tarde, este mesmo aluno iria parar a Timor, a "Terra portuguesa que o sol em nascendo, vê primeiro"( Lusíadas), tendo passado, antes, pelas Costas de África!
No Ultramar e na Metrópole, começou, como Professor, a longa cruzada de levar os seus discípulos a pensar por si próprios e a aceitar que todos os homens pensam o que quiserem, enquanto seres pensantes, porque o que vemos, o que ouvimos, o que lemos, o que escrevemos, o que criticamos, não nos permite descurar o constante exercício de pensar, livremente, com escrupulosa insubmissão a ideias alheias!
Edgard Panão

( in, "Os Convencidos da Vida" (Sum, ergo cogito). Ed.MinervaCoimbra-2010 )