Por trás…
À mesa do café ouvem-se muitas histórias. Sem darem por isso, as pessoas das mesas vizinhas, sem darem por isso, põem as vidas a nu, umas vezes, outras a descoberto: umas têm piada, outras nem tanto.
Na mesa ao lado da minha, estavam duas donas, madames ou lá o que o vocabulário permita que se lhe chame, cuja idade devia rondar os mais que sessenta, setenta ou coisa que o valha, que as mulheres sabem esconder bem a cronológica. Ao contrário das “repúblicas” académicas que em cada ano fazem cem, as mulheres em cada dez contam mais um; algumas, até, nem conseguem passar nunca dos quarenta.
Mas estas, não: deviam ser velhas amigas, e amigas velhas ou menos jovens, e não valia a pena esconder o inescondível.
Palavra puxa palavra, ideia puxa ideia, queixa puxa ideia, e sai um arrazoado de caras feias e sorrisos, de “ohs!” e “huns” e outras interjeições igualmente perfumadas.
A certa altura, vieram à baila as queixinhas maritais, sobretudo picuinhices. E foi no contar de um desses pormenores insignificantes que veio o dito:
- Com tanta esquisitice, eu devia ser mesmo muito bonita para ele casar comigo!
Devia ser, devia, porque tal ainda era constatável. Mas, mais interessante, foi o remate da questão:
- Sim, era. Penso mesmo que era. Mas agora, quando me olho ao espelho, dou comigo a dizer para mim mesma: rabo de liceu, rosto de museu.
Ganhei a tarde: ainda hoje continuo a sorrir com o “rabo de liceu, rosto de museu”.
“Rosto de museu”? Tá bem, tá!
