S.Gonçalo de Amarante

Só uma observação: O texto está bem escrito, mas o “grande” Eça de Queirós referido abaixo, poderá ser neto ou bisneto do José Maria de Eça de Queirós, que conhecemos, porque no tempo do avô ou bisavô não havia Toyotas Hiace…

Abraços

L.L.

 

 

Recordo uma quadra cantada pelas jovens estudantes de Coimbra nas festas da queima das fitas:
 
 

São Gonçalo de Amarante

Casai-me que bem podeis

Já tenho teias de aranha

No sítio que bem sabeis

 


Não deixem de ler o texto abaixo do grande Eça de Queiroz, a propósito do histórico santo casamenteiro.

 

os caralhos de são gonçalo

 

 

"Val­de­mira Gomes do Ó – ou Mirita, como todos a conheciam em Tagilde, onde geria com pulso de ferro um mini-mercado com tasca asso­ci­ada, atravessou a ponte sobre o Tâmega em direc­ção à bela Igreja de S. Gon­çalo, onde entrou animada de plano con­creto. Já den­tro do rico tem­plo pro­cu­rou a pequena capela do santo, que à hora do almoço não apre­sen­tava grande movi­mento – ape­sar daquele pri­meiro domingo de Junho ser a sua festa anual.
Junto ao túmulo de cal­cá­rio polí­cromo ape­nas duas mulhe­res reza­vam, tocando o monu­mento umas vezes com as mãos, outras com a cabeça.
Mirita espe­rou, de joe­lhos no chão.

A seu lado, no inte­rior de um saco colo­rido feito em espesso tecido bor­dado com moti­vos flo­rais, des­can­sava um outro saco de plás­tico trans­pa­rente bem cheio de Doces do Santo – uma espé­cie de cava­cas de Resende de for­mato ine­qui­vo­ca­mente fálico. Ela e o marido iriam nos dias mais pró­xi­mos ter por sobre­mesa exclu­siva os conhe­ci­dos ‘Cara­lhos de S. Gon­çalo’.

Mas fal­tava o prin­ci­pal, de acordo com os con­se­lhos da mulher de saber que con­sul­tara há duas sema­nas na Por­tela do Gove: devia esfre­gar a testa do corpo no túmulo do santo, mas sem qual­quer roupa em cima…

Por isso viera sem cue­cas.

Res­tava aguar­dar o momento em que a capela não tivesse nin­guém: então iria erguer a saia, esfre­gando de seguida a fel­puda inti­mi­dade no cal­cá­rio pin­tado que cobria e alin­dava o túmulo do santo padro­eiro de casa­doi­ras e infér­teis de longo curso.

Final­mente o momento che­gou.

Nin­guém à vista!

Mirita levan­tou a saia, que esco­lhera larga e apro­pri­ada à ousada mano­bra, e, cheia de cui­da­dos, esfre­gou uma e outra vez a testa do sexo no vér­tice já um pouco gasto do velho túmulo – ao mesmo tempo que mur­mu­rava a ladai­nha que a Bruxa de Eiriz, como era conhe­cida a sua mulher de saber, lhe indi­cara por con­ve­ni­ente.
Na sua devo­ção paro­xís­tica nem deu pela apro­xi­ma­ção de uma outra mulher, bem mais velha, que a assus­tou com um comen­tá­rio tro­cista:
– Ó san­ti­nha…, deixe-se lá disso, carago… Olhe que não vão ser essas esfre­ga­de­las que a vão aju­dar, isso é garan­tido…

Mirita, que bai­xara num repente o largo ves­tido e se apres­sava a ganhar alguma com­pos­tura no meio de uma cora­dela que não enga­nava nin­guém, apressou-se a ripos­tar uma quase irada e gague­jante per­gunta:

– E quem é você para saber se fun­ci­ona ou não?…

– Sou par­teira diplo­mada, Geno­veva Pires ao seu dis­por… Mas diga-me só uma coisa: já fez algum teste de fer­ti­li­dade?…

– Já fiz sim senhora!, e o dou­tor disse que eu não tinha nada estra­gado…

Então a diplo­mada Geno­veva pediu-lhe para a acom­pa­nhar para fora da igreja, pois tinha algo de muito impor­tante para lhe dizer.
Já cá fora, no par­que late­ral ao con­vento, mesmo em frente ao Museu Ama­deo de Souza-Cardoso, as duas encon­tra­ram poiso calmo e rela­ti­va­mente dis­tante de ouvi­dos alheios.

Geno­veva Pires foi direita ao assunto:

– Minha san­ti­nha, se você não tem nada estra­gado… então quem está estra­gado é o seu homem. Ele porta-se bem no ser­viço?…
Que sim, que era um ani­mal com­pleto, que não a dei­xava em paz noite nenhuma… A não ser quando apa­nhava grossa car­ras­pana. E acusava-a de não lhe dar filhos, um que fosse, e ela que bem que­ria, pois seria maneira dele a dei­xar em paz por uns tem­pos, ao menos…

– Então é por­que tem os lei­tes estra­ga­dos…, disse a diplo­mada em tom pro­fes­so­ral.

Que não podia ser, que nem lho pode­ria dizer, que a matava, que lhe fugi­ria – lamentava-se Val­de­mira Gomes do Ó, com lágri­mas fáceis a inflamar-lhe já as vis­tas.
O con­se­lho da diplo­mada par­teira che­gou seco e pesado com um relâm­pago do estio:

– Arranje outro macho para o ser­viço… Mas longe daqui, que não seja conhe­cido… E faça a parte de comer os doces, e diga ao seu homem que veio à igreja esfregar-se, que ele assim achará que foi mesmo mila­gre…

Da ime­di­ata reac­ção furi­osa de Mirita resul­tou o fim da entre­vista, com a par­teira Geno­veva a bater em reti­rada no meio de comen­tá­rios pouco abo­na­tó­rios à inte­li­gên­cia da puta­tiva mãe frus­trada.

À falta de melhor, a gerente comer­cial de Tagilde vol­tou à igreja em busca de con­solo no con­fes­si­o­ná­rio.

Cinco meses se pas­sa­ram, assim como muita água do Tâmega cor­reu por baixo da velha tes­te­mu­nha gra­ní­tica de napo­leó­ni­cos esfor­ços e galo­pes libe­rais ou abso­lu­tis­tas.
Num iní­cio de tarde outo­nal, Val­de­mira do Ó saía do res­tau­rante ‘Zé da Cal­çada’ apo­de­rada do braço de um homem atar­ra­cado que se esfor­çava, de forma quase hos­til para ter­cei­ros, por protegê-la de qual­quer encon­trão do muito povo que ani­mava as ruas. A pro­tu­be­rân­cia ven­tral que Mirita exi­bia não dei­xava dúvi­das: estava grá­vida, mui­tís­simo grá­vida!…

O casal encaminhou-se para uma Toyota Hiace, onde o homem, com cui­dado extremo, aju­dou a mulher a subir e a instalar-se como­da­mente no lugar do pas­sa­geiro. Depois, ligando o rádio e beijando-a com cari­nho evi­dente, rumou à Igreja de S. Gon­çalo.

Mirita cabe­ce­ava de sono quando um leve toque no vidro da Hiace a fez des­per­tar para uma incó­moda rea­li­dade: do outro lado, com um sor­riso de frin­cha negra, a par­teira diplo­mada fez-lhe sinal para des­cer o vidro.

Não que­rendoân­dalo, a gerente comer­cial de Tagilde lá ace­deu em des­cer o vidro, para de ime­di­ato ouvir um sonoro «Ahhh!…».

– É, res­pon­deu Mirita seca­mente.

– E?…, per­gun­tou a par­teira Geno­veva.

– Oh!…, não lho vou dizer, carago…

– Diga-me só se é de longe, minha filha. Não lhe quero mal nenhum, e por isso é que lhe per­gunto se não é daqui… Por­que, veja bem, se for daqui e tiver mais filhos, ainda pode acon­te­cer uma coisa que você nunca que­re­ria… Ima­gine que tem uma menina e ela, daqui a 20 anos, se apai­xona por um meio-irmão que não conhece?…

– Bem…, come­çou a medo a futura mãe, ele não é daqui mas tem vivido por aqui…

– Eu sei tudo sobre os pais e os filhos desta cidade e arre­do­res…, bem, de quase todos… Diga-me só quem é, para saber­mos se há algum risco. Pela minha honra que nunca fala­rei no assunto…

Mirita corou como uma romã madura e bem aberta, antes de garan­tir que não havia perigo nenhum:

– … É o padre…

Geno­veva Pires dei­tou por momen­tos as mãos à cara, antes de decla­rar o seu espanto:
– Ai então não há perigo por ser o padre?!… Pois olhe que agora é que o perigo é grande, mulher!… É que nem eu lhe conheço os filhos todos, carago…

Eu bem lhe disse que isso era para se fazer longe daqui, san­ti­nha!…

A con­versa desfez-se ali, o vidro subiu len­ta­mente, com o mesmo vagar com que a diplo­mada se afas­tava da Hiace.

O atar­ra­cado marido regres­sava, de sor­riso estam­pado no rosto.

De longe ainda, apon­tou para um trans­pa­rente saco repleto de ‘Cara­lhos de S. Gon­çalo’.

Ao entrar no fur­gão anun­ciou com feli­ci­dade evi­dente:

– Hoje até me confessei!…

 

Autor: António Eça Queiroz