Queridos tristes, hoje vou escrever sobre um livro que não li e não lerei. Enviaram-me algumas partes, leram-me ao telefone outras, é certo, mas fosse como fosse, ainda que não soubesse qual o assunto, não o leria. Por que motivo?
Por dó!
Eu trabalhei com este homem 16 anos e fui assistindo à sua progressiva entrada num mundo muito dele que – para utilizar uma expressão benévola – se pode considerar loucura obsessiva egocêntrica. Aliás o título do livro dá conta disso mesmo, reparem:
“Eu e os políticos”! O título diz tudo. Se Camões escrevesse “Eu e a gesta portuguesa”; ou Cervantes alinhavasse: “Como eu criei um cavaleiro meio louco de La Mancha e o seu escudeiro Sancho Pança”, talvez não tivessem o mesmo sucesso. Mas eles não eram obsessivos egocêntricos.
Um dia, este autor – que eu terei pudor de dizer o nome – disse, em tom sério, numa entrevista, que aspirava ao Prémio Nobel da Literatura. Acho que hoje não se importaria em receber o da Química, por ser capaz de transformar tudo o que toca em mmmmm…. coisas pouco recomendáveis.
Mas há algo de profundo e sério que este livro suscita e só por isso aqui o trago.
- Utiliza pretensas frases de pessoas já falecidas – Miguel Portas é, talvez, o caso mais flagrante – que o desmentiriam imediatamente. Aliás, eu conhecia Miguel Portas desde 1973; posso estar várias horas a descrever defeitos seus, que como todos os tinha. Mas há uma qualidade inegável que já foi referida por outros amigos, que nem têm a amizade em comum comigo: ele amava o seu irmão Paulo e nunca confessaria ao autor da porcaria acima referida o que o autor da coisa diz que ele confessou. Estou a chamar mentiroso ao autor? Sim! Estou!
- O mentiroso diz que não sendo jornalista não tem de seguir a deontologia destes. Devia ter utilizado esse argumento para não ser diretor de jornais. Um gajo – nome que agora me parece apropriado ao seu nível – não pode invocar ser jornalista para beneficiar das suas vantagens, e invocar não ser para as trair. Isto é senso comum. Até um profissional falhado de outras artes, que não o jornalismo, percebe!
- O energúmeno – nome que me parece ainda mais apropriado – disse de mim o que o Maomé disse do toucinho depois de me mandar um cartão simpático a dizer que nunca diria mal de mim. Durante mais de 10 anos nunca me referi à figura, mas ele até ao meu casamento (com uma prima direita do seu vizinho de baixo, porque ele é o centro do mundo) invocou para referir as suas loucuras. Foi ele que disse que eu daria cabo do Expresso em seis meses (em conjunto com o Pedro Norton que não me deixa mentir) e que o jornal que fundou se tornaria líder num prazo curto. É bom que perceba que 10 anos depois, quando dizemos que tivemos um Verão de Sol não estamos a referir-nos a ele, nem a Luís XIV. É bom que saibam qual a credibilidade deste calhandreiro.
Este homem, ao referir as privadas e íntimas vidas daqueles que com ele falaram (algumas seguramente mentiras, como sempre), mata a relação de confiança que um jornalista, um diretor de jornal ou um responsável por um jornal deve ter com as fontes. É um idiota! Ou se preferirem, é a encarnação da genial previsão de Alexandre o’Neil no poema ‘Aproveitando uma aberta”
Se um tolo nunca vem só,
quando não vem, não vem mais
ou vem, digamos por, por dó…
E o dó dói como um soco,
até mesmo quando parte
de um tolo que a vossa arte
promoveu de tolo a louco
Não lerei o seu livro, mas isso não impede de referir o asco que sinto por aquelas linhas. Ele chama-lhe um livro proibido. Mas o livro não é proibido. O autor, isso sim, estruturalmente egótico, faz-nos lembrar que algumas pessoas deviam estar internadas.
E era só isto. E acrescentar que Passos Coelho faz bem em apresentar a obra. A Renova sabe que tem homem para apresentar tomos ou rolos novos que decida fazer. De preferência, o líder do PSD deve fazer-lhe algumas confidências sexuais, se é que as tem. Mesmo que não tenha não faz mal; o autor inventa-as no seu próximo livro que se chamará “EU, EU EU e aquele gajo que foi primeiro-ministro cujo nome não me ocorre, mas era qualquer coisa Coelho”
