Uma história verdadeira
Eu estava a dar aulas em Esmoriz (Ovar). Ía a caminho da Escola, logo de manhã, e o menino,com idade indefinida, passou por mim. A aula que ir "dar" era de português,com uma turma muito disciplinada e muito criativa. Eu estava de tal maneira comovida com aquele menino que propus a todos:
-Vamos fazer uns "jogos florais". Cada um faz um poema,à sua escolha. Não há tema:
Era costume, na Primavera, com as minhas turmas de português, fazer esses "jogos florais" no campo, com coroa de flores e tudo. Nesse dia aconteceu no Natal.Foi surpreendente.Eu fiz este poema. Cada qual leu o seu. Na votação final ganhou o da minha autoria o que também não era de estranhar!.. .
Nessa época de Revolução Cultural,após o 25 de Abril, foi muito cantada nos chamados "Cantos Livres"
MENINO DESCALÇO
É Dezembro é frio, é mês de Natal
Passaste por mim, descalço e roto
O ranho mal lavado, na cara de revoltado
De quem já conhece o mal,
Olhaste-me aborto ….
Menino descalço,
menino descalço
Levavas ao ombro,
dependurada num cordão
Uma saca de pano,
cheia de buracos
E nos bolsos esgaçados, uma côdea de pão
Espreitando sozinha, por entre teus trapos
Menino descalço,
menino descalço
Porque és mau, quando teus olhos têm azul?
Porque odeias, quando tua alma é branca ?
Quem te esqueceu no caminho
Te roubou no amor
Desfolhou tua alma e nos teus olhos
Matou a cor ?
A vida, a sociedade
Os homens, a crueldade,
desigualdade
Menino descalço
menino descalço
Menino descalço, dos outros irmão
Por eles esquecido, por eles lembrado
Um dia mais tarde, ao seres explorado
Não me olhes assim, no ódio, no mal
Reparte comigo a côdea de pão
Menino descalço, dos outros irmão
Maria Prazeres Quintas
