Uma insustentável chateza!

Um dia, o Tónio Mula, Mula do pai, meu colega, filho de Zaqueu, convidou-me para ir cear com ele. E lá fomos, no fim de um jogo rijo de "chetra"; era assim que se chamava a "bilharda" ou a "porca russa", nas terras da Serra da Estrela, onde sua avó vivera, antes de vir para junto dos seus pais, em má hora, dizia ele, claro; quando este meu amigo se referia à sua avó, com falta de carinho, eu, que achava a minha avó e o meu avô tão carinhosos, ficava muito chocado, mas fui.

Em casa da minha avó, punha-se sempre, em cima da mesa retângular, com dois bancos corridos, a ceia quase, sistematicamente, o caldo couves e broa ou umas azeitonas, bacalhau, sardinhas, etc. e, enquanto o porco durasse na salgadeira, comia-se um naquinho de carne gorda entremeada, avermelhada com a cor do feijão da sopa; como hoje se diria, era a dieta ideal para evitar o colesterol, a diabetes, a obesidade e outros males que podem acontecer a quem abusa das refeições chamadas de "enfarta-brutos", que hoje por aí se veem e ajudam a encher os hospitais.

Quando cheguei a casa do meu amigo, filho de rico, pensei que iria comer uma ceia diferente, melhorada e farta, mas aconteceu, para resumir, simplesmente, isto: a mesa era na mesma retangular, só que em vez de bancos, tinha boas cadeiras; o caldo não era o mesmo da minha avó, era de castanhas piladas, uma coisa horrorosa que tive de comer; como não via maneira de ver chegar mais nada, à mesa, decidi levantar-me e ir-me embora; mas fui, imediatamente, agarrado e puxado contra a cadeira, pelo meu amigo que me cochichou:

— Não podes sair, olha que ainda falta vir a "chouriça"! Foi então, que a avó dele se levantou para agradecer aquela refeição e começou as suas habituais e intermináveis rezas.

De fugir! antes cear em casa dos meus avós maternos; a minha Avó rezava, apenas, uma jaculatória e logo que se benzesse, tínhamos ordem de sair da mesa, ir brincar ou ir para a cama, conforme a estação do ano.

Ttexto enviado pelo Dr. Edgard Panão
Imagem retirada de Belle foto bianco nero