Da Conchada até à Baixa

É frequente ouvir chamar Alto da Conchada, ao lugar onde se situa o cemitério desde 1860 quando, antes deste, toda aquela vasta área era conhecida como Monte da Forca. Paralelamente a esta designação há também uma outra, referindo que parte daqueles terrenos eram conhecidos por Monte do Pio, em alusão a um remoto proprietário.
As hipóteses que apontam para a existência da forca naquele espaço são de considerar se atendermos aos topónimos que ainda hoje perduram. Veja-se a placa da Ladeira da Forca, situada na confluência da rua de Aveiro com a da Figueira da Foz, até à pouco designada Escadas da Forca, cujo acesso se encontra totalmente obstruído a partir das traseiras da antiga Fábrica dos Curtumes. Também a Ladeira de Santa Justa, sem que tenha qualquer sinalética, é igualmente conhecida por Ladeira da Forca, indo no seu trajecto pela encosta acima até ao cadafalso - dizia-se! Sem conjecturar a respeito da época, das razões e do número de execuções que ali poderiam ter ocorrido, é de admitir que ela bem poderia ter existido, deixando em aberto o caminho para uma pesquisa sobre o assunto. Há a certeza, sim, da última execução por enforcamento nesta cidade, no areal do Mondego em 1839, no tempo de D. Maria II, não tendo a rainha correspondido ao pedido da Misericórdia de Coimbra para comutação da pena. Curiosamente foi seu filho, D. Luís I, que em 1867 aboliu a pena de morte para todos os crimes civis.
Voltando ao tema, da Conchada até à Baixa, vejo-me agora no Terreiro da Erva, onde se mantém aquela que foi a primitiva Igreja de Santa Justa, com toda a informação histórica ali patente, que não cabe agora aqui tratar. Terá sido a lembrança do chafariz, que dantes existiu na parede a nascente do Terreiro, ao lado da extinta tipografia Pais Martins,e da célebre Taberna do Peres, o famoso galego radicado toda a vida nesta cidade, que me fez vir até aqui. O dito chafariz, que foi retirado pela Câmara, por sugestão da Junta de Freguesia vai para trinta anos, teve como justificação o facto de as pessoas lavarem ali os carros aos fins - de semana. Tal atitude esqueceu o desempenho de cariz social que aquela instalação teve, quando tanta gente que por lá vivia não tinha água canalizada nas suas casas e era aí que se abastecia. Aliás, o relato mais autêntico desta situação está plasmado no levantamento que levei a cabo a respeito da vivência nesta zona da Baixa, nos anos cinquenta/sessenta, onde me foi referida a existência de um rapaz, fisicamente diminuído, tomado como criado das ditas casas de porta aberta, e a quem chamavam o Juca. Apesar de legalizadas, muitas delas não tinham água no seu interior, sendo ele quem a levava nuns baldes a pedido das meninas.
Para mim, as fontes, as alminhas, os campanários, os cata-ventos e os chafarizes são marcos e memórias. Até hoje, o do Terreiro da Erva não foi reposto, não obstante existir na referida parede o sítio demarcado com argamassa onde ele deveria ser recolocado, com a emblemática torneira de êmbolo, o respectivo tanque em pedra, e o poiso incorporado. Este um desafio à Câmara, com a promessa de um arraial com o Rancho de Coimbra, quando a água ali voltar!
António Castelo Branco
