CASA DOS TORRESMOS

Rui-Felicio173.png

O Zé Lopes, mais conhecido por Carvalhosas, por ter nascido na aldeia do mesmo nome na margem esquerda do Mondego, afirmava sem modéstia que a sua Casa era a melhor de Coimbra para uma ceia à base de petiscos.

Nem tanto para se jantar, porque os melhores cozinheiros que ali iam fazer uma perninha, só à noite estavam disponíveis. Durante o dia trabalhavam nas sofisticadas cozinhas do Hotel Astória e do Hotel Avenida.

Mas em comida de palito o dono da Casa dos Torresmos pedia meças.

Com a dupla vantagem, dizia, de o artefacto de Lorvão servir para picar o petisco e depois para esgaravatar os dentes no fim do repasto.

A sua Casa, orgulhava-se o Carvalhosas, oferecia um bom ambiente para uma converseta entre os convivas, sobre os mais variados temas, desde política à má língua.

Degustar uns pipis, umas rodelas de morcela de arroz, umas moelas com molho picante, uns troços de farinheira frita, uns torresmos, umas tiras de presunto da salgadeira, uns nacos de leitão da Bairrada, acabado de chegar no comboio das oito, umas fatias de queijo curado de São Romão, tudo regado com uma celestial pomada do barril atestado dia sim dia não com o encorpado  tinto vindo expressamente de Cantanhede, tudo isto era o lastro estomacal, para desatar as línguas, exercitar os dedos e afinar as gargantas para a desejada sessão de música popular com que terminaria a noite.

Era especialmente aos sábados à noite que ali se juntavam os tocadores e os cantores, que eram gente de trabalho e nem sempre podiam fazer noitadas nos outros dias da semana.

A Casa dos Torresmos, na Travessa das Canivetas, atraía a vizinhança das vielas próximas que às portas e janelas se aprestava para ouvir os trinados que esperavam escutar lá por volta das onze da noite.

O Ralha na guitarra, o Arnaldo no banjo ou na concertina, o Olímpio na viola eram, todos eles, excelentes executantes e por isso presenças desejadas pelo Carvalhosas que transformariam a noite quando a sua vida lhes permitia irem à sua Casa.

O Olimpio e o Ralha também cantavam, mas a trempe ficava completa, quando, pasme-se, aparecia o Lacerda, Chefe da Secretaria do Liceu D. João III, que interpretava divinamente o Fado de Coimbra e outras canções populares beirãs.

As noites coimbrãs, ao contrário do que se pensa, não se resumiam ao ambiente universitário.

Rui Felicio