Coimbra, a Cidade dos “doutores”.

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Coimbra, a “Lusa Atenas”, é uma das mais míticas e lendárias cidades portuguesas.

 

À excepção de Lisboa, nenhuma outra cidade mereceu a atenção de tantos poetas e escritores portugueses ilustres. Como lembra Miguel Torga, estudante e habitante de Coimbra, foi daí “que saíram Camões, Garrett, Antero, Eça, António Nobre, Afonso Costa e outros”. Coimbra é uma cidade de grandes tradições: históricas, políticas, culturais, literárias, populares, não houve em Portugal revolução política ou movimento cultural que não encontrasse entre os estudantes de Coimbra apoio ou reflexo. Uma das grandes tradições é, por exemplo, o Fado de Coimbra, mitificador, ele próprio, da história da cidade e criador de personagens históricas que identificam e se tornaram símbolos da cidade. Coimbra é também a cidade que viu nascer seis dos reis portugueses e que guarda as lendas da Rainha Santa e dos Amores de Pedro e Inês. É ainda, e assim é conhecida, a “Cidade do Mondego”, que “não é apenas o mais importante dos rios nascidos em Portugal. É também o mais português por ter sido sentido e cantado por quase todos os grandes poetas portugueses” (Borges, 1987).

 

Por tudo isto, e sobretudo pelo misticismo que a envolve, é difícil caracterizar a identidade da cidade a partir dos seus símbolos. Esta tarefa seria, aliás, impossível se os elementos identitários e representacionais de Coimbra não estivessem intimamente ligados todos à mesma fonte: a Universidade.

 

Com os seus setecentos anos de existência a Universidade tem em Coimbra um peso simbolicamente arrasador nos discursos representacionais da cidade. Ao longo destes séculos a “Cidade do Mondego” foi-se expandindo mas sempre tutelada por uma Universidade que a foi moldando aos seus interesses. A presença secular da Universidade deixa uma marca indelével em todos os traços identitários da cidade, desde os monumentos às personagens históricas passando pelo ritmo da própria cidade, os seus modos de vida mais característicos e específicos, a sua estrutura económica e os episódios marcantes da história local.

 

Nas monografias históricas Coimbra difunde uma imagem de cidade histórica e até monumental. Desde o seu símbolo mais popular, a Torre da Universidade, aos seus monumentos mais esplendorosos e emblemáticos, como a Biblioteca Joanina, a Sala dos Capelos ou a Capela de São Miguel, os principais ícones que representam Coimbra são edifícios universitários.

 

Entre os monumentos que não estão directamente ligados à presença da Universidade, mas sim a outra presença simbolicamente significativa na cidade (presença da Igreja), distinguem-se o Mosteiro de Santa Cruz, onde jazem os dois primeiros reis de Portugal, a Sé Velha, o mais perfeito exemplo da arquitectura românica em Portugal onde D. Sancho I foi coroado e onde D. Pedro jurou ter-se casado em segredo com D. Inês de Castro (uma das personagens históricas mais representativa da cidade), o convento de Santa Clara a Nova, onde repousa a Rainha Santa (padroeira e principal personagem histórica da cidade), e a Sé Nova, que faz parte do primeiro colégio criado pelos jesuítas em todo o mundo.

 

Não sendo representada pela sua singularidade monumental, a cidade de Coimbra é sobretudo vista como uma cidade histórica que rememora, através dos seus monumentos, algumas das personagens, dos acontecimentos, das lendas e dos actos heróicos do país. Nesta dimensão histórica integra-se também um outro símbolo da cidade: o Portugal dos Pequenitos, que é um dos locais mais visitados em Coimbra.

 

Um outro símbolo da cidade são os estudantes, e ainda que muitas ou todas as cidades tenham estudantes, Coimbra é, por excelência, a “Cidade dos estudantes”, ou a “Cidade dos doutores”. Uma das imagens mais distintivas de Coimbra foi, durante muito tempo, as capas e batinas. As gerações de estudantes universitários que se foram sucedendo construíram, com a sua irreverência, com a sua imaginação e com a sua centenária “Associação Académica de Coimbra”, muitas das velhas e das novas imagens da cidade. Da praxe académica à Queima das Fitas, da Latada aos grupos musicais académicos, Coimbra inspirou muito significativamente aquilo que é o novo clima urbano e cultural de algumas cidades médias portuguesas. O ritmo da própria cidade está condicionado ao próprio calendário académico e à presença ou ausência de estudantes. Inclusive ao nível da oferta cultural, dos Festivais de Teatro Universitário aos Encontros de Fotografia, é ainda no seio da Academia que emergem novas dinâmicas urbanas. Particularmente aos estudantes, Coimbra deve a imagem de cidade contestatária e reivindicativa. Em 1943,

 

Fernando Namora sublinhava que a “tradição de luta é uma constante na história moderna da Academia de Coimbra” (Namora, 1943). Nos anos 60, com a contestação ao regime salazarista, e nos anos 90, com a contestação à “Lei do Financiamento do Ensino Superior”, essa imagem continua bem viva.

 

Esta imagem de cidade contestatária tem um outro símbolo a que a cidade deve muita da sua projecção nacional e internacional, também ele nascido no seio da Academia. A “Académica”, a “Briosa”, que, no mundo lusófono, do Brasil a Cabo Verde, de Moçambique a Timor, inspirou muitos clubes de futebol, que vestem de negro e a quem, na gíria, se chama estudantes. A Académica que conquistou ao Benfica a primeira Taça de Portugal de futebol em 1939. A Académica dos “pardalitos do Mondego” que afrontava o poder quase hegemónico de Lisboa e que, em plena crise académica de 1969, numa final da Taça de Portugal de futebol, foi à capital dar um abanão no regime.

 

Menos visível, mas identificadora da cidade, é a imagem que Coimbra dá de uma cidade dual e dividida. Dividida entre a Alta burguesa ligada à Academia, com a Universidade a ocupar o topo da colina e as “Repúblicas” a acentuarem o poder simbólico dominante, e a Baixa popular, ligada ao comércio e aos serviços.

 

Dividida por outro símbolo da cidade, o Mondego, o “Bazófias”, entre a margem direita e a margem esquerda, tantas vezes esquecida. Dividida socialmente entre “Doutores e Futricas” com consequências evidentes na cadência da cidade e na segregação dos seus espaços. Nessa dimensão mítica que caracteriza a cidade, Coimbra não é apenas uma cidade dividida é uma cidade que divide, que é muitas vezes representada como uma “Cidade de passagem” em que se fica por uns anos até os estudos acabarem. Por isso, para impor a sua marca de cidade que divide, “Coimbra tem mais encanto na hora da despedida”.

ETéla Nón

Em Hector Costa

(Mestre em Sociologia

pela Faculdade de Economia

da Universidade de Coimbra)