A “VOLTA” QUE A POBREZA DEU: O CÊNTIMO COMO ESPELHO DA MISÉRIA

Em 2009, ao aterrar no Aeroporto de Hamburgo, deparei-me com uma realidade que me pareceu, à data, bizarra e distante da vivência pacata que conhecia em Portugal.
Enquanto aguardava pela entrega do carro que alugara para explorar a região, observei um vaivém incessante de pessoas munidas de carrinhos de supermercado. O alvo daquela procura minuciosa não eram as lojas de conveniência, mas sim os caixotes do lixo da infraestrutura aeroportuária.
Movida pela estranheza de ver tal cenário num dos países mais desenvolvidos da Europa, questionei quem me acompanhava, um residente de longa data na Alemanha. A explicação foi simples: procuravam latas de alumínio e garrafas abandonadas pelos turistas, pois valiam cinquenta cêntimos cada. Havia quem fizesse disso profissão.
Dezassete anos depois, o fenómeno bate-nos à porta. Com a recente implementação do Sistema de Depósito e Reembolso (SDR) sob a marca «Volta», Portugal tentou alinhar-se com as metas ecológicas europeias, cobrando um depósito por cada embalagem de plástico ou lata de metal. Mas a teoria ambientalista rapidamente esbarrou na crueza da nossa realidade socioeconómica. Que «volta» é esta que o país deu?
O que se prometia ser uma alavanca para a economia circular transformou-se, aos olhos de qualquer observador urbano, num sintoma inequívoco de degradação social.
As ruas das nossas grandes e pequenas cidades assistem agora a uma caça sistemática ao símbolo da «Volta». No entanto, ao contrário da organização germânica, o cenário em solo luso faz-se acompanhar de lixo espalhado pelas calçadas, contentores revirados e uma disputa feroz por resíduos que outrora ninguém queria.
A pergunta que urge fazer nas páginas d’O Ponney é inevitável: estaremos perante o sucesso de um novo negócio de reciclagem ou diante do espelho retrovisor de um Portugal empobrecido?
A resposta reside na dignidade humana, ou na falta dela. Quando vemos idosos, aqueles que trabalharam uma vida inteira, a vasculharem caixotes do lixo à porta de hipermercados na esperança de encontrar fruta machucada ou produtos fora do prazo de validade, percebemos que a recolha de garrafas não é um passatempo ecológico.
É uma estratégia de sobrevivência.
Os cêntimos que para muitos são um arredondamento insignificante na fatura do supermercado, transformaram-se, para uma franja crescente da população, na única via para amealhar o suficiente para comprar o pão do dia.
O sistema «Volta» atingiu recentemente números expressivos de devoluções, mas falhou em prever o seu impacto colateral nas ruas e na alma dos cidadãos. A ecologia não pode servir de máscara para a miséria. Se a recolha seletiva só funciona porque existe fome e desespero a impulsionar o braço de quem procura no lixo, então o sistema económico faliu.
Portugal não precisa apenas de dar a ''volta'' às suas metas de reciclagem; precisa, urgentemente, de dar a "volta" à precariedade que empurra os seus cidadãos para a indignidade de disputar cêntimos entre os resíduos da sociedade de consumo. Sob pena de, muito em breve, o lixo nas ruas ser o menor dos nossos problemas.
Manuela Jones
