CRÓNICA SOBRE UM FILME DE TERROR

Há dias em que não dá mesmo!
Aqueles dias em que ficamos com o cabelo encharcado, que nos dá aquele ar de quem foi lambido por uma vaca, num justo pagamento por me ter esquecido do guarda-chuva algures.
Sabe como é?
Se conhece esta sensação é porque vai entender bem o que se passou comigo. Mesmo que aparentemente possa parecer que já perdi o juízo e digo coisas estranhas é importante usar as minhas botas.
Começo por dizer que me refugio das chuvas em espaços mais ou menos abrigados. Até aqui nada de especial, nem é nenhuma novidade espacial.
Chego mesmo a entrar em lojas muito esquisitas, daquelas que nunca entraria se não fosse empurrada pelas chuvas imensas. Numa certa troca por abrigo tenho que ouvir os empregados da loja como se estivesse interessada em comprar um dos produtos. Na realidade pouco convincentes sobre a funcionalidade dos seus exóticos produtos com cheiros, cores, formas e falsas utilidades cada um tem, cada um mais esquisito do que o anterior. E não é que me vem sempre à mente um filme de terror misturado com a angústia da luz do dia cinzento pardo que começa a escoar-se por cada três minutos de cada vez.
A angústia subterrânea trazida pelo mau tempo, mas que o nosso termómetro regista. Entre esta troca improvisada de abrigo e ouvir enaltecer os produtos mais esquisitos, sorrateiramente, atiro um olho para ver se a chuva abranda. Acabo a recolher o olho sem resultados que me agradem.
A verdade é que não abranda e o galopante cenário, que desemboca no tema dos rituais e sacrifícios humanos, estalam-me como foguetes por dentro de mim.
Sinto que não posso descontrair, sem ter medo de dizer a coisa errada que fere suscetibilidades, sujeita às vis interpretações que podem fazer, acabo por conter a verdade. Afinal estou abrigada, que mais quero?
Eu sei! Mas não me peçam fórmulas de assertividade nem se importem que rosne se for caso disso, e o alívio que sinto faz-me querer encostar a cabeça, mesmo com o cabelo encharcado e lambido e ficar, receber enfim a excelente notícia de que abrandou a chuva e posso fugir.
Não me estranhem, mesmo que seja estrangeiro por cá. Não me acusem de julgamento nem confundam as minhas intenções, porque o nosso desencaixe é simétrico.
Esqueço-me do guarda-chuva e não uso pronomes como fetiches de quem é apanhado com a mão no prazer. O meu fetiche é o de querer afirmar o que desejo, estar sem empregados atrás de mim para me venderem tretas. É com isso que me identifico, um plano mítico para quem vive à superfície, deformando o corpo, confundindo a consciência e escamoteando palavras, mutilada a razão com um arco-íris na machadinha e prometo-me nunca mais me esquecer do bendito guarda-chuva em qualquer lado para não entrar em mais filmes de terror.
Credo! Vou mas é ver um filme cómico!
Maria Júlia
