Da sopa de nabos à rapioca

ANNIBALE-CARRACCI-O-COMEDOR-DE-FEIJOES-1585.jpg

 Houve uma vez mais que semear em pó, algo que a nossa gente nunca esquece mal vê o Outono ir-se embora, bem sabendo que irá chover. É então altura de arar as terras e de nelas espalhar as sementes que a auguinha sempre se encarrega de fazer germinar. Neste tempo que corre, falo de nabos, dos nabos no seu todo, com grelos, rama e cabeças, criados nestas terras de areias que foram talhadas para eles. Ainda hoje, muita gente os cultiva se bem que, dantes, era raro o dia em que não entrassem na panela para a ceia e no dia seguinte para o dejum. E vou direito à sopa, à sopa de nabos que, em tempos idos, por esta altura do frio, era por aqui uma comida de mantença. E não resisto a falar desta que é, para muitos, a mais saborosa e que nunca desmereceu a mesa dos pobres e dos ricos, segundo o testemunho da D. Graciete que é daqui da Volta da Tocha e tanta vez a cozinhou. - A preparação é a de uma sopa normal, relata-nos, onde entram como ingredientes cabeças de nabo aos pedaços e a rama dos mesmos, cortada miúda. - Pouca rama, interrompe a tia Dalice, porque tem meruge e dá voltas à barriga! E a nossa interlocutora continuou: - leva também batata, uns grãos de arroz, cebola, feijão seco, um fio de azeite e um pedaço de toucinho meio salgado já que outras carnes e enchidos eram só para quem podia!

 A certa altura, porém, começou a ser prática agarrar no caldo onde se cozia a carne e deitar por cima de farinha de milho que antes havia sido colocada num recipiente onde era bem trilhada com uma colher de pau e levada à trempe até ficar em papa. Era a chamada rapioca. No dia seguinte, a sopa que sobrava era outra vez posta ao lume, acrescentada também com farinha, sem parar de mexer, para ficar bem diluída e não encaroçar. Ora, uma vez que nesta situação também era usada a farinha, poderemos falar de uma segunda versão da rapioca. No entanto, se voltasse a sobrar e porque estava grossa, cortava-se em pequenos cubos, depois aquecidos na péla e lá caíam de novo na mesa, pois as bocas eram sempre muitas e nunca por aqui se estragou comer. E a tia Maria da Sanguinheira, que ao lado assistia à conversa, vai de arrematar que era uma boda quando havia umas sardinhitas assadas para conduto, fossem elas frescas ou mesmo sem cabeça, com uns dias de moira. E então, com meia dúzia de azeitonas e uns torresmos gordos, era uma requeza!

Há quem defenda que a introdução da farinha neste prato, bem como a designação de rapioca, foram trazidas pelos nossos emigrantes do Brasil, onde havia uma grande colónia saída daqui, tendo eles por lá comido idênticas sopas acrescentadas com farinha de mandioca. Quando regressaram, e na falta daquela, substituíram-na pela de milho. Terá assim  nascido a rapioca portuguesa?!

António Castelo Branco    

Arte: ANNIBALE CARRACI - 1585