Eça e os Impostos

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Disse alguém que o imposto era a maneira mais justa e mais eficaz que o contribuinte tinha de colocar a sua fazenda. Decerto. Decerto, se as despesas públicas fossem nascidas da utilidade e do bem do povo;  se os recursos que o imposto dá  fossem administrados  com economia, vigilância, probidade e inteligência; decerto, se as despesas servissem para acrescentar o poder, a riqueza, a moralidade, a nobreza da nação; decerto, se essas despesas fossem com um sistema de instrução pública bem aplicado, se fossem para cumprir os terríveis  compromissos do Estado para com os seus credores, se fossem para grandes obras públicas sabiamente reguladas.

 

Mas as despesas são muitas, são aparatos de vaidade, são com reformas prejudiciais e estéreis, são com um funcionalismo exagerado e corrupto. São sobretudo para andar constantemente construindo e comprando os apoios monumentais, para pagar à imensa clientela dos sequazes, dos adoradores e dos servidores sem consciência. Não se sabe aqui, neste pobre país, sustentar a dignidade nacional, instruir o povo, animar as agriculturas, fazer obras precisas, criar as instituições necessárias.

 

O que se sabe é comprometer a nossa liberdade e a nossa honra, o que se sabe é criar acomodações rendosas e opulentas para os zelosos proteccionados, o que se sabe é corromper com dispêndio enorme toda aquela multidão de funcionários que dão aos governos o apoio do número e do aplauso sem consciência;  o que se sabe é criar vão aparatos;  o que se sabe é pagar um numeroso pessoal administrativo e fiscal para oprimir o povo; o que se sabe é criar, com enorme despesa, uma polícia vexatória e opressiva.

 

Excerto do texto publicado no Distrito de Évora, respectivamente no n.º 17 de 7 de Março de 1867.

 

Eça e os Impostos – Textos coligidos por SÉRGIO VASQUES

Livraria Almedina – página 49