O DIÁLOGO DOS PARDALITOS

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Pois desde sempre que os animais, do modo geral, se aproximam de mim em confiança, mesmo as espécies naturalmente ariscas, agressivas ou hostis, passam a barreira humana-selvagem desarmados da sua reserva defensiva. Nunca fui picada por uma abelha, em vez disso dançam à minha volta, muito perto, confusas com o odor do meu perfume ou as cores dos meus vestidos (já apanhei uma com a mão, por acidente, e quando a abri, como já contei aqui, a abelhinha estava toda aninhada, como se dormisse numa flor), um gato selvagem num parque (não um gato sem dono, mas a espécie) saltou para o meu banco e instalou-se ao meu lado, num Inverno frio, para ser acariciado, um pardal já me veio comer à mão, tentado por uma migalha de bolo enorme, atraído aos poucos, centímetro a centímetro, até ao salto final de confiança, já para não falar na vespa asiática que me entrou em casa e que se deixou calmamente arrastar por mim para fora da janela, ao som da minha voz calma.

E é de pardais que venho falar. O tal que veio buscar o bolo à minha mão, era um pardal do Choupal. Foi atraído pelo piquenique em que eu participava, mas mantinha a distância segura. Fui colocando migalhinhas no chão, junto a uma árvore, cada vez mais perto de mim, que ele ia recolhendo, mantendo a minha mão á vista, pousada no solo, para que se habituasse a ela, até que a última migalha permaneceu na minha palma. O pardal percebeu que não a pousaria na terra e que tinha de vir buscá-la. Era uma grande migalha de bolo, docinha e saborosa. Ele testou-me, para saber se podia confiar em mim, aproximando-se quase a tocar-me e afastando-se de um salto. Eu não me mexi nem produzi sons, até me aperceber que era o meu silêncio excessivo que o intimidava. Produzi um som baixo e suave, ritmado, com a língua, e ele aproximou-se tão de repente que fiquei surpreendida com o meu auto-controle, pois senti o bico predador na minha palma a arrebatar a migalha e a levá-la para longe. Ou antes, um pouco mais longe, porque assim que bicou e esvoaçou, o pardal aterrou a um metro de mim, já calmo, e observou-me, tirando as suas conclusões, o bico cheio da saborosa migalha.

Desde esse dia que, sempre que estou sentada a uma mesa ao ar livre, no Choupal, um pardalito pousa ao meu lado, junto às minhas mãos, a olhar muito valente para mim. É o único dos companheiros a fazê-lo, porque os outros mantém alguma distância. Vem quando estou a lanchar e pergunto-me se será o mesmo, agora confiante que não lhe faço mal.

Ontem assim foi. Estava abrigada numa mesinha, em companhia amiga, a conversar, quando dois pardais esvoaçantes se aproximaram. Um pousou no chão, a cerca de um metro, outro na mesa, junto à minha mão, a olhar ora para mim, ora para a minha amiga, ora para a torrada, como que dizendo:

"Olá, sou eu! Olá, sou eu! Sou eu, sou eu, reconheces-me? Migalhinha? Dás-me uma migalhinha? Migalhinha boa?"

Sem gestos demasiado amplos, cortei uma migalha gorda da minha torrada e pousei-a na mesa junto ao meu prato. O pardalito não se fez rogado e, num salto gracioso, apanhou-a e voou.

Ora o seu companheiro assistia à cena do chão. Olhou para o amiguito a voar com uma farta migalha, todo contente, olhou para mim, para a minha torrada e os seus olhos diziam:

"Ora vejam... o Piquinho foi valente, pousou naquela mesa e deram-lhe uma migalha... Aquela gente deu-lhe uma migalha... vejam só... Se eu também tivesse sido assim valente... também tinha uma migalha..."

Mensagem compreendida. Cortei um pedaço idêntico da minha torrada, uma migalha igualmente gorda, e atirei-lha para perto, onde se sentisse seguro para apanhá-la. E o companheiro do meu amigo pardal assim fez, sem mais delongas.

MCM