*«O Fubeiro», Parte IV - Depois da aurora e antes do crepúsculo da fortuna de Tomé Branca - Fascículo 4/4*

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Aparece o honesto e mulherengo engenheiro Jorge e o bojudo arquitecto Marco.

Ambos trabalham para Tomé da Branca, com finalidades laborais distintas.

Jorge trinca fruta proibida, entre ela a filha e a directora administrativa de Tomé da Branca e este não perdoa ao engenheiro o pecado mortal.

Tomé da Branca envolve Jorge numa marosca, junto dos corruptos mandantes das obras, no município – os corruptos vereadores já vêm de longe – e faz-lhe a vida negra, um breu da cor dos olhos da sua filha que Jorge come.

As manhãs dos dias seguintes podem ser assim, inesperadas, quando encerram noites de insónias em que os pensamentos se atormentaram em consequência de dormitares débeis, amaldiçoados os espelhos mágicos que são capazes de reflectir a vida e os pensamentos de alguns homens aperreados. Tomé anda inquietado. Os pedúnculos dilatados. Os braços trémulos. Há, no espelho mágico, uma imagem reflectida a confirmar os cabelos grisalhos e o início de calvície antecipada no tempo. As pestanas murchas. As sobrancelhas caídas sobre as pestanas como se fossem palas de ensombramento. O dorso dói. Os ossos rangem ao mínimo movimento. A caixa torácica dói. Na sala de espera da clínica particular onde vai fazer as primeiras análises clínicas generalizadas, desde o tempo da inspecção militar, Tomé da Branca quase falece de temores. Inseguro, mas a tentar agarrar-se à vida. Sentado num banco incómodo, tenta ler um artigo de uma revista médica que diz que a sodomização pode provocar problemas cardíacos irreversíveis. Tomé devora a totalidade dos parágrafos desse artigo, interessado. Tomé aproveita um interregno na leitura para observar com olhar melancólico uma mulher linda de morrer, que se acomoda a seu lado, quase acostada a si, vestida de forma provocadora em tons de vermelho. Umas pernas esculturais. Tomé imagina os seios da mulher. A lingerie que o vestido oculta. Tomé não percebe que aquela mulher é o mesmo modelo publicitário que aparece numa das páginas da revista que folheia. Tomé imagina os gingares daquele corpo de papel. E recorda-se de Adélia. E de Fernandinha. E de outras mulheres. E de Eva. Tomé naquele momento pretende estar com todas ao mesmo tempo. Na mesma cama, sem se preocupar se elas pretendem partilhar a coisa, ou não. Tomé anda inquietado por ter chegado a idade dos problemas na próstata. Tomé anda preocupado com o incómodo provocado pelos problemas hemorroidais. Tomé pensa que as dores de cabeça, fortes, são passageiras. Tomé anda arrependido de ter envolvido num processo maquiavélico pessoas inocentes. Tomé transpira. Tomé sente a pulsação acelerada. Tomé é solicitado, pelo altifalante, uma e outra vez, a entrar na sala de análises. Tomé só ouve à terceira, porque alguém o interpela a questionar se o seu nome é Tomé. Tomé sorri e diz que sim, que o seu nome é Tomé. Também Tomé da Branca - pensa. Tomé não diz, mas sente que algo vai mal em termos de saúde.

E padre Bernardino deixa de apaparicar o feitio rude e desoneste de Tomé da Branca.

A partir do fascículo 2/4, inclusive, da Parte IV, a versão editada através do Jornal “O Ponney” é um exclusivo cedido pelo Autor ao Jornal, uma vez que a versão que será editada em livro segue outra narrativa de ficção.

© Luís Gil Torga

 
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