DIZ-ME QUEM ESCOLHES…

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- Inicio esta crónica com uma “declaração de interesses”: ex-candidato presidencial, mas alvo de distorções e discriminações, obtive um resultado ridículo e não simpatizo com algumas personagens aqui visadas. Realidades que não me turvam a lucidez e rigor até porque, defensor de causas, nunca apelei ao voto em mim próprio…

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            O reforço do Partido Socialista, na atual legislatura, concedeu-lhe o direito a nomear mais Conselheiros de Estado. A escolha da AR recaiu sobre três cidadãos: Carlos César, Sampaio da Nóvoa e Manuel Alegre, por esta hierarquia. Uma ordenação estranha, mas que fere a História e viola os Estatutos do Partido, ao ignorar a quota feminina. Será que nenhuma mulher, neste país, tem “categoria” para representar o PS?

Deixemos de lado a opção por Carlos César e Manuel Alegre, “senadores” sobre quem nada pende em desabono. Centremo-nos em Sampaio da Nóvoa, um “independente dito de esquerda” que nunca teve qualquer ligação ao PS, para além de se opor vivamente ao saudoso e respeitado Mariano Gago.

Tardiamente indiciado, pelo PS, como opositor a Marcelo, um ano depois já lhe tecia rasgados elogios. Fosse esse o critério e outra personalidade o suplantaria: refiro-me à “histórica” Ana Gomes que, do género feminino, nunca virou a cara à luta. 

Mas vale a pena debruçarmo-nos sobre a enigmática biografia de Sampaio da Nóvoa, para se perceber a “delicadeza política” desta nomeação: reza a sua história ter frequentado a Faculdade de Matemática, em Coimbra, “onde não concluiu o curso”. Por esclarecer, há quem contradite que, nesse período, apenas “andou a cabular”. 

Dado também o seu fracasso no futebol, na Académica, regressaria a Lisboa para frequentar um curso não oficial de Teatro, entre setembro de 73 e abril de 74, buscando uma “carreira” em que também falhou, apesar de inegável talento. Já no fervor do PREC, ficou célebre a cena em que, para surpresa familiar, se apresentou na casa paterna para almoçar com a namorada, mas na condição de “casado nessa mesma manhã”.

E foi nestas andarilhanças, sem ter obtido qualquer diploma em Portugal, nem mesmo à custa de passagens administrativas, então muito em voga, que, nos anos seguintes, foi cooptado Professor do Ensino Básico, em Aveiro. Nada de anormal, dada a sua formação básica...

Filho de “boas famílias”, seria mais tarde dotado de um Fiat 127 e remetido para a Bélgica, para uma espécie de ano sabático. Acabaria por se fixar em Genebra, onde se inscreveu numa Universidade prestigiada, numa espécie de voluntariado para frequentar um curso que não exigia habilitações superiores. Ao que consta, não houve fraude…

E é neste contexto, sem que lhe seja reconhecido qualquer título académico superior, e sem que a sua “tese” tivesse ainda sido reconhecida, na Suíça, que foi convidado para Professor da Universidade de Lisboa:

- Nós, cá, reconhecemos-te a tese. – Ter-lhe-á garantido o seu patrono, segundo notáveis declarações de Sampaio da Nóvoa a um órgão de informação. 

Uma decisão que se revelou precipitada, porque nunca o júri daquela exigente Instituição aceitou tão incertas credenciais. Motivo para Sampaio da Nóvoa “emigrar” até Aveiro onde, aí sim, lhe foi concedido “doutoramento”. E só então ingressou de vez na Universidade de Lisboa, de que depressa se tornaria Reitor. “Sem nunca ter entrado na Reitoria”, como também declarou em entrevista. 

Nunca qualquer destes factos, públicos, e amplamente divulgados, foram alvo de desmentido. Todos conhecemos um ex-primeiro ministro que obteve a sua licenciatura ao domingo, no culminar de um polémico processo que envolveu meia-dúzia de cadeiras, duvidosamente creditadas por uma numa “escola manhosa”. Neste caso, e apesar de eu próprio lhe ter colocado a questão olhos nos olhos, num debate televisivo, nunca Sampaio da Nóvoa forneceu informações precisas sobre a data, o curso e a escola onde adquiriu a licenciatura, grau académico registado em certas biografias.

Mais ainda. A seguir às presidenciais, e apesar de insistentes acusações de plágio por parte de prestigiados académicos brasileiros, também nunca contraditadas, Sampaio da Nóvoa passou a ser o único cidadão português que, sem pertencer à carreira diplomática, se tornou Embaixador. Um “algoritmo” fora de qualquer contexto lógico, até dada a visibilidade internacional do cargo que ocupou, na Unesco. 

Nada me liga a Ana Gomes, pessoa que nem sequer se dignou responder a vários pedidos de audiência, que lhe enderecei durante três décadas, movido apenas pelo interesse do meu país. Que pensará esta socialista muito bem informada, que passou por todos os filtros e foi uma diplomata brilhante, da nomeação para o Conselho de Estado de alguém com um percurso recheado de “equivalências”, na aparência ainda mais duvidosas do que as exibidas por um célebre ex-ministro, este do PSD?

Não se entenda este último parágrafo como proposta para Ana Gomes integrar o Conselho de Estado: tal como a maioria dos portugueses, há muito que estou de “saco cheio”, embora reconheça que contenha muitas peças valiosas, mas por entre demasiados “cacos” desnecessariamente escaqueirados, em causas que não partilho.

Mas voltemos a Sampaio da Nóvoa, alegadamente “defensor de causas sociais”, que também totalmente se ignoram. Neste capítulo, apenas se lhe reconhece uma condenação por excesso de litigância, no Tribunal de Oeiras, numa vã tentativa de desalojar uma Instituição sem fins lucrativos, que se dedica à Proteção de Menores com deficiências físicas e mentais. Estragava as vistas e desvalorizava o imóvel em que habitava, seriam os fundamentos da importante ação cívica que liderou.

Para terminar, sem ressentimentos que nunca alimentaria, mas apenas no exercício do dever cívico de escrutinar a verdade sobre as figuras públicas, declaro a minha disposição de me retratar perante Sampaio da Nóvoa, caso ele prove que o PS não cometeu mais um tremendo “erro de casting”.

Confesso, porém, que veria com alguma satisfação a sua renúncia voluntária ao Conselho de Estado. E passo a explicar porquê:

Num estilo sem dúvida muito apreciado, e em mais uma bela “colagem de citações”, Sampaio da Nóvoa logrou encadear magistralmente, em apenas três páginas, mais de uma dúzia de “heróis nacionais”, para no final perguntar:

- Afinal, quem és tu, Portugal?

E a resposta, traduzindo uma total ausência de ideias políticas, logo surgiu muito “natural”:

- Ninguém!

Por mim, preferia repor a legalidade estatutária dentro de um PS em que fui quase fundador, e em que continuo filiado e com as quotas em dia, que não militante, e ver o Conselho de Estado preenchido por uma mulher que, perante esta questão de quem é Portugal, ousasse responder:

- Tudo!

Cândido Ferreira

– Cidadão escritor e político nas horas vagas