O que são os santos populares?

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Esta altura do ano é famosa em Portugal pela celebração dos chamados santos populares. Estamos todos muito habituados às sardinhas, aos manjericos, às marchas lisboetas, a uma ou outra celebração popular da nossa respectiva região, mas... se toda a gente parece saber, mais ou menos bem, em que consistem as celebrações, afinal de contas quem são essas figuras, e porque são elas celebradas de uma forma tão grande? É desse tema que aqui falamos hoje, até porque nos fizeram essas mesmas perguntas há umas horas.

 

Os chamados "santos populares" são, como até pode ser visto na imagem acima, Santo António de Lisboa (identificável pelo penteado e pelo Menino Jesus ao colo), São João (aqui identificável pela face jovem e pela ovelha, símbolo do rebanho de Cristo) e São Pedro (sempre fácil de identificar por ser representado com as chaves do Céu). São todos os três figuras bastante conhecidas no nosso país - uma pessoa comum poderá nem saber identificar, por exemplo, uma imagem como Santa Iria, mas muito poucos são as pessoas ignorantes sobre a identidade de aquele santo de careca ao léu e menino ao colo - mas o que faz deles, nessa sequência, três figuras tão conhecidas e tão dignas de serem festejadas com tão grandes festas?

 

A resposta, curiosamente, vem das próprias lendas associadas pelos Portugueses a cada uma destas três figuras ao longo dos séculos. Se figuras como, por exemplo, Santo Ovídio ou São Torpes são muito conhecidas em determinadas regiões do país, já estes três são-no por todo o país, mas com alguns aglomerados de maior popularidade em alguns locais. Progressivamente, isso contribuiu para os Antigos irem contando histórias sobre eles, que escapam completamente ao espírito das figuras originais, sendo uma espécie de relatos apócrifos que juntam (muita) ficção e (quase nenhuma) realidade. Recordem-se, a título de ilustração deste ponto, histórias como a da Festa de Santo António (em que o santo é reduzido a um jovem milagroso que, como qualquer outro, queria apenas ir a uma festa); a popularidade do nome João em Portugal; e as muitas lendas nacionais que colocam Jesus e Pedro como viajantes que se envolvem num qualquer problema. Estes não são casos únicos - relembrem-se, igualmente, as histórias de Nossa Senhora e o Linguado ou do devoto a São José - mas esta tríade é composta por um conjunto de três figuras que ao longo do tempo se tornaram muitíssimo populares entre o nosso povo e, como tal, passaram as ser chamados santos populares - isto, não só por serem do povo, mas igualmente em virtude da sua grande estima pública.

 

Poderia, no entanto, ser-nos colocada uma questão adicional - porquê estes três? Porque não outros santos, como o São Vicente de Afonso Henriques, ou aquela Nossa Senhora das centenas de nomes? Claro que esta última está num patamar completamente diferente, imediatamente abaixo da Santíssima Trindade, não sendo sequer comparável a figuras definíveis como "meros santos", mas em relação às restantes possibilidades não é fácil perceber-se o porquê de terem sido estes três, em detrimento de um grupo de quaisquer outros, que se foram tornando populares. Por isso, se nos fosse feita aquela tal pergunta, a resposta seria, nada mais, nada menos, que algo como "não sabemos, apenas foram crescendo em popularidade ao longo do tempo, tal como em outros países os santos contemplados com essa elevação popular foram outros."

 

Qualquer que tenha sido a razão, a elevação de aqueles três aos santos populares por definição teve e tem alguns aspectos um tanto ou quanto estranhos, igualmente difíceis de explicar. Por exemplo, quando falamos de Mouras Encantadas, muitas das suas lendas dizem que elas tendiam a surgir de forma mais frequente na Noite de São João. Porquê essa, e não uma outra? Em termos de certa brincadeira, poderíamos teorizar que as pessoas ficavam bêbadas e imaginavam coisas que não estavam mesmo lá, mas deixando de lado essa jocosa possibilidade, não é fácil compreender-se o porquê da associação da noite desse santo - a de 23 de Junho - com esse misticismo bem nacional.

 

Enfim, as linhas de hoje já vão longas. Volte-se à identidade dos santos populares e o porquê de eles serem celebrados como o são hoje em dia. Em relação ao primeiro ponto, eles tratam-se de Santo António de Lisboa, São João e São Pedro, e - para avançarmos para o segundo - são hoje celebrados de uma forma muito específica por terem sido, ao longo do tempo e por razões que não são claras, escolhidos pelo povo nacional como os maiores representantes da santidade no nosso país.

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