O sol depois da tempestade

Foi o sol deste sábado, após os temporais, que empurrou os clientes do interior do Café Santa Cruz para a esplanada. E eu, sozinho lá dentro, senti-me como se estivesse a dominar aquele lugar histórico a partir da Mesa das Tertúlias, e a olhar, na minha pequenez, a grandeza daquela abóbada de nervuras que vislumbrava acima de mim! Por outro lado, reparava naquele espaço lá fora e não acreditava que o calor que lá chegava seria suficiente para crestar quantos a tal se propunham. E não acreditava, porque, desde menino, sempre ouvi dizer que Fevereiro matou a mãe ao soalheiro e que Fevereiro quente traz o diabo no ventre! Entretanto, apercebi-me de que começava gente a entrar, e que isso talvez tivesse a ver com alguma iniciativa que fosse acontecer, prática que é comum e leva as pessoas a sentarem-se frente àquele degrau por debaixo do arco, onde foi o Altar-Mor da Igreja de S. João de Santa Cruz, para partilhar e intervir nas mais diversas actividades, previamente programadas. Efectivamente ali acontecem, como é do conhecimento geral, múltiplas acções de cariz cultural, nomeadamente exposições, recitais, apresentação de livros, comunicações, música, e diariamente fado de Coimbra. Entretanto, aquele sol que até há pouco cobria a esplanada e congregava um público tão diverso, subiu. Subiu, e passou a reflectir, por entre os vitrais, aquela luminosidade diáfana sobre os mármores das mesas e as ferragens do mobiliário, que nos faz sentir num ambiente de cenários únicos, mantidos, preservados, salvaguardados!... No caso concreto, tal valeu a este espaço a classificação de Café com História, que tanto o honra!
António Castelo Branco
