AS PAREDES CONTINUAM A GRITAR

Esta semana o Ministério Público arquivou queixa feita pelo Professor Doutor Boaventura Sousa Santos contra 13 mulheres que o colocaram em tribunal por assédio sexual e moral.
O sociólogo Boaventura de Sousa Santos anunciou no ano de 2024, por comunicado enviado à agência Lusa que «Desde o início deste processo flagrante contra mim, tornou-se cada vez mais claro que foi orquestrado pela direção do CES e que o seu único objetivo é político. Desde a direção do CES, houve uma clara predeterminação de todas as ações destinadas a exonerar qualquer má prática do centro e a fazer recair a responsabilidade sobre o fundador, ou seja, sobre mim», alegou.
Porém, no ano passado de 2025, foi produzido um documento, promovido pelas feministas Isabel Allegro de Magalhães, Mary Layoun, Maria Irene Ramalho e apoiado também por António de Sousa Ribeiro, que sucedeu a Boaventura de Sousa Santos na direção do CES. O que contraria a questão da perseguição da instituição CES para com Boaventura de Sousa Santos.
O processo iniciou-se quando três investigadoras que passaram pelo Centro de Estudos Sociais (CES) da Universidade de Coimbra denunciaram situações de assédio num capítulo do livro intitulado “Má conduta sexual na Academia – Para uma Ética de Cuidado na Universidade”, o que levou a que os investigadores Boaventura de Sousa Santos e Bruno Sena Martins acabassem suspensos de todos os cargos que ocupavam no CES, em Abril de 2023.
O CES acabou por criar, uns meses depois, uma comissão independente para averiguar as denúncias, tendo divulgado o seu relatório quase um ano depois, em 13 de Março de 2024, que confirmou a existência de padrões de conduta de abuso de poder e assédio, por parte de pessoas em posições hierarquicamente superiores, sem especificar nomes. De acordo com o relatório, então divulgado, à comissão independente foram denunciadas 14 pessoas, por 32 denunciantes, num total de 78 denúncias.
O que de si só demonstra uma enorme contradição com o atual apoio de António de Sousa Ribeiro. O que aumenta o mistério é que o Tribunal já tinha negado o pedido de Boaventura para impedir que mulheres, que o denunciaram, falem publicamente sobre o caso.
O Professor Boaventura de Sousa Santos argumentou, entre outras coisas, que as denúncias refletiam uma mudança de época, sugerindo que certas condutas, consideradas normais no passado, eram agora vistas de forma diferente, o que gerou controvérsia e debate sobre a interpretação dos eventos sob diferentes perspetivas temporais e de poder. Ainda assim, foi divulgado ontem um documento, promovido pelas feministas Isabel Allegro de Magalhães, Mary Layoun e Maria Irene
Ramalho. Nesse manifesto afirmam ter sido “violado o direito de defesa” de Boaventura de Sousa Santos, e exigem “o fim do cancelamento e do silenciamento”
do fundador do Centro de Estudos Sociais (CES) da Universidade de Coimbra e “uma das vozes mais influentes no pensamento das Epistemologias do Sul”.
Mesmo considerando que os critérios de assédio eram diferentes no tempo de Boaventura e os de hoje, o documento acabou por ter o apoio de personalidades internacionais, como o jurista espanhol Baltasar Garzón, o Prémio Nobel da Paz Adolfo Pérez Esquivel, o teólogo Leonardo Boff, o escritor Silviano Santiago, a filósofa brasileira Marilena Chaui, o advogado José Carlos de Vasconcelos, o escritor Almeida Faria ou o capitão de Abril Vasco Lourenço, entre muitos outros.
O facto é que Boaventura de Sousa Santos gerou controvérsia ao afirmar, numa entrevista, que mulheres da sua geração (anos 60/70) que alegam nunca ter gostado de piropos são "hipócritas". Argumentou que, na época, o galanteio era comum, defendendo a sua postura face a críticas. Esta declaração surge num contexto de escrutínio pessoal e intelectual sobre o sociólogo.Defendendo que o piropo era uma prática comum de galanteio na época.
A realidade é que as paredes, que gritaram os assédios, as muitas mulheres que o acusaram e as que se sentiram caladas e assediadas não pensam como estas figuras que assinam o apoio a Boaventura.
Um mistério que, muito provavelmente, será apagado para impedir a verdade. Para já o Ministério Público considerou que a tentativa de mais um ataque às mulheres que denunciaram deveria ser impedido.
JG
30-01-2026
