ENTRE NEGLIGÊNCIA E IA

Ao longo do tempo, Coimbra, pela Universidade, foi-se tornando um repositório de saber e ciência que também tem como consequência a excelência clínica. Nos corredores centenários dos Hospitais da Universidade de Coimbra, integrados na atual Unidade Local de Saúde, gerações de médicos formaram-se e formam-se sob o peso da responsabilidade e da tradição. Mas por trás da reputação da cidade, cresce um outro retrato, onde as denúncias por negligência e por alegados tratamentos errados põem em causa esse acumular de conhecimento, que já se projeta na Inteligência Artificial (IA).
Nos últimos anos, os hospitais de Coimbra têm vivido episódios que expõem fragilidades estruturais e operacionais preocupantes. Janeiro de 2026 trouxe-nos à tona casos críticos: uma doente oncológica em fase terminal foi deixada no chão da urgência do CHUC por falta de macas, enquanto outro episódio mostrou negligência médica ao dar alta a uma utente que faleceu após duas idas às urgências. No mesmo mês, tornou-se evidente o problema crónico da retenção de macas de ambulâncias, que dificulta o socorro e compromete a capacidade de resposta da urgência.
No ano anterior, em outubro de 2025, uma utente dos CHUC perdeu o bebé e pediu uma indemnização de 200 mil euros, denunciando falhas graves nos cuidados obstétricos.
Um episódio anterior, em novembro de 2024, revelou outra falha grave: um homem de 66 anos foi admitido com náuseas e dores abdominais e acabou por esperar mais de dez horas sem atendimento adequado. Recebeu uma alta administrativa por “abandono”, no entanto nunca deixou o serviço, na manhã seguinte, foi encontrado em paragem cardiorrespiratória, acabou por morrer na unidade. A Entidade Reguladora da Saúde apontou falhas graves na monitorização e no cumprimento de protocolos, enquanto a administração reconheceu sobrelotação e falta de médicos.
Mas os problemas não se limitam a estes episódios mais recentes. Em 2022, o CHUC foi condenado a indemnizar uma paciente em 36 mil euros por ter deixado uma compressa no pulmão durante quatro anos após uma cirurgia. Em 2021, doentes internados após enfarte relataram ter passado dias sem cuidados básicos de higiene, enquanto no final da década de 1990, uma jovem ficou cega, paraplégica e praticamente muda após uma operação à vesícula no CHUC.
Cada acidente tem um contexto próprio, mas quando se repetem deixam de parecer exceções. Tornam-se um sintoma de um sistema pressionado pela escassez de profissionais, sobrelotação crónica e uma cultura institucional defensiva, mais focada em proteger a reputação do que em assumir responsabilidades ético-profissionais.
O caso do chefe da equipa de tumores cerebrais do CHUC, que está a ser alvo de procedimento investigatório por alegada negligência médica, pode ser ilustrativo de uma cultura institucional defensiva, por parte da administração. A denúncia foi, inclusivamente, feita por profissionais da própria equipa. Cirurgias de elevada complexidade, práticas inadequadas, violações da “legis artis” (regras científicas e técnicas dos médicos), tumores parcialmente removidos. Onde médicos anestesistas recusam-se a operar com o cirurgião. Que têm como decorrência mais de 70 doentes ainda em lista de espera. E a acusação mais perturbadora: mortes ou complicações graves numa base regular. No entanto, o cirurgião continua a operar e mantém-se em funções como chefe de equipa.
Paralelamente, a estas falhas, a ULS de Coimbra anuncia inovação.
Ferramentas de Inteligência Artificial estão a ser implementadas na radiologia em unidades de Saúde. Trata-se de um avanço real, que pode salvar minutos preciosos e uniformizar a qualidade diagnóstica. Porém nenhuma tecnologia substitui o olhar atento de um doente esquecido numa cadeira de urgência. Nenhum algoritmo resolve a falta de profissionais suficientes para avaliar quem entra nas urgências. Nenhuma inovação compensa a ausência de responsabilidade e transparência.
Coimbra continua a ser uma cidade de conhecimento e referência clínica. Profissionais dedicados salvam vidas todos os dias nos seus hospitais. Isto é uma verdade. Mas também é verdade que há famílias que perderam os seus entes queridos em circunstâncias que exigem explicações claras.
A pergunta que se impõe não é se o sistema falha, pois todos falham. A verdadeira pergunta é: o que acontece depois da falha?
Existe aprendizagem real? Responsabilidade efetiva?
A Saúde Pública mede-se não apenas nos avanços tecnológicos ou na reputação. A Saúde Pública talvez se deva medir na forma mais humana com que trata qualquer doente.
Antes do avanço tecnológico, deverá estar o avanço no cuidado com a gestão das equipas de Saúde que lidam com o doente e com as suas famílias.
Iara Santos
06-03-2026
