O quórum

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Os nossos avós romanos bem nos avisaram que o que não ficava escrito nas actas, não era deste mundo. Foi decerto por saber disso que vi, um dia destes numa acta municipal, isto mesmo - "estando presente o clorum". Assim: o clorum.

Fiquei de certo modo aflito. É que, andando eu por essas andanças municipais, fiquei a temer aparecer descorado. Ou ter, por efeitos de muita concentração, uma daquelas acidezes gástricas que costumam sublinhar grandes almoços e que foram uma das irrerversíveis conquistas da nova classe política, depois de Abril.

Por isso, procurei indagar dos revisores de texto, meus prestimosos amigos, e conhecedores das voltas que o português dá, se não teria havido a possibilidade de uma troca de perna de letra, ou palavras de pernas para o ar. Mas não era tal.

O pensamento - esse voa. E o meu viu-se voado para o regime que nos antecedeu, e que se dizia quê, na assembleia principal do país havia tão grande número de orelhas abanando que o seu efeito produzia grandes correntes de ar, que os meteorologistas não conseguiam identificar, e que terminaram com uma grande borrasca de Primavera. Mas agora as correntes de ar têm aumentado, por efeito, também, do movimento, de cima para baixo, num gesto automático, e partidário, ao estilo saxónico ou saxofónico, dos "yes men".

Mas o que nunca imaginei, foi ver aplicadas, na prática, aos eventos da vida pública as histórias brejeiras do nosso tempo de Coimbra. E que se referiam ao tal “quórum”

Na imaginária Coimbrã, perfilavam-se histórias como essa - Falta o "quorum" – diz o

secretário da mesa na solenidade do acto. "Pois marque-se falta injustificada ao quorum" - afirmará o presidente da mesa, peremptório, no uso dos seus poderes democráticos.

Claro que, sendo as actas de invenção romana, cada um poderá, dentro da sua democrática discricionariedade, tomar a personagem que quiser.

Mas a história, por ser real, repetir-se-á tantas quantas as vezes que a ignorância se apresente.

E não será de todos impossível assistir de novo áquilo que os nossos olhos espantados viram, e os ouvidos aturdidos ouviram numa prova escrita sobre a constitucionalidade das leis, na qual se viu um aluno atrapalhado a pedir dicionário de latim para ver se vislumbrava o genitivo declinado. Precisamente: "quorum". Que evidentemente, lá não estava.

Hoje, um tipo com tal perfil seria, quando menos, deputado eleito pelos partidos, ou assessor constitucional em qualquer presidência que, como é bom saber, não será exactamente a mulher de qualquer presidente.

Por tudo isso, arriscamo-nos, um dia destes, a ouvir numa das nossas assembleias

 - Falta o "quorum" (ou o "clorum", que o som é quase igual) - dirá a presidência.

- Está no bar – dirá, prestimoso, o secretário.

De todo o modo, que seja relevada a falta ao "quorum". É que ele esteve sempre nesta crónica, à boa maneira de Coimbra.  

João Conde Veiga

Em Coimbra para ser Coimbra