Os vencidos da vida, de Manuel da Silva Gaio (excerto)

«Paris fez a Revolução, Londres deu Shakespeare, Viena deu Mozart, Berlim deu Kant, Lisboa... deu-nos a nós – que diabo!»
Os Vencidos da Vida (com excepção de António Cândido) fotografados por Augusto Bobone em 1889, no jardim da casa do conde de Arnoso, na Rua de S. Domingos à Lapa: marquês de Soveral (Luiz Pinto de Soveral, 1850-1922), Carlos Lima Mayer (1846-1910), conde de Sabugosa (António José de Mello Cezar de Menezes, 1854-1923), Oliveira Martins (1846-1894), Carlos Lobo d’Ávila (1860-1895), Eça (1845-1900), Ramalho Ortigão (1836-1915), Guerra Junqueiro (1850-1923), conde de Arnoso (Bernardo Pinheiro Correia de Mello, 1855-1911) e conde de Ficalho (Francisco Manoel de Mello Breyner, 1837-1903)
Agradeço à Direção da Associação dos Estudantes da Faculdade de Letras a honra que me deu, convidando-me para presidir a esta conferência. E agradeço-a cordialmente, porque desde logo a traduzi em termos da solidariedade que deve existir entre nós, professores e alunos, isto é, estudantes mais velhos e estudantes mais novos.
Para além desta emoção, por assim dizer profissional, o lugar que neste momento ocupo desperta no meu espírito outros sentimentos.
É que o conferente desta noite e o assunto da sua conferência gozam do raro privilégio de se prolongarem no mundo da memória, quer dizer, de ultrapassarem os domínios do fait-divers, criando associações indestrutíveis. Eu não sei, dentre os homens da geração do Sr. Dr. Manuel da Silva Gaio, quem, como ele, tenha as pupilas mais abertas e os ouvidos mais atentos para todas as vibrações do espírito e mais juvenilmente tenha reagido contra o reumatismo intelectual e contra as carapaças do hábito.
Na sua obra há sem dúvida literatura; mas emergindo do revestimento verbal, belo em si por vezes, há a vibração duma inteligência que, compreendendo e sentindo, generaliza também.
Poesia e filosofia coexistem na sua arte, e quer-se melhor prova que os poemas “D. João” e o “Santo”, onde a beleza da conceção e plano universal em que se colocam transcendem os estados emocionais, já de si complexos?
A sua arte foi mesmo em certo momento um processo de sementeira de um ideal, como na “Chave dourada”, o poema do neo-lusismo.
Desde 1890 até hoje, exprimiu sempre com alacridade, nesta pacífica e às vezes morna Coimbra, todas as vibrações da inteligência e do sentimento da beleza, tão extensamente que a literatura dos seus livros nos faz compreender as oscilações e inquietudes da cultura nacional nos últimos trinta anos.
O Dr. Manuel da Silva Gaio vai-nos falar dos Vencidos da Vida, isto é, dos homens que no século passado, depois da jornada romântica, mais honraram a inteligência e o primado das ideias sobre o sentimento.
Do primado da inteligência, disse, porque realizaram na arte, na crítica e na vida, esta façanha heroica do domínio da consciência clara, isto é, a razão, sobre o evanescente e o caprichoso episódico.
Eu sei que os “vencidos” estão hoje em eclipse no céu da nossa cultura: Oliveira Martins esquecido, Guerra Junqueiro maltratado, o Conde de Ficalho, objeto de citações, e o Conde de Sabugosa, encadernado em edições de bibliófilo. Só Antero e Eça de Queirós são vivos e atuais; mas não há sintomas patológicos na admiração que alguns lhes votam?
Sei tudo isto, sei mesmo que viveram no século XIX, e que nós vivemos no século XX e que os ideais de hoje, talvez com brutal revolta, se apresentam não como “vencidos”, mas como “vencedores”. Afirmaram, no entanto, uma posição moral e intelectual de amor pelas ideias, de respeito pelos homens, compreendendo — porque não dizê-lo? — Com indulgência o homo credulus e não sacrificando com dogmatismo ao homo sapiens.
É destes homens e da sua atitude em face da vida que o Dr. Manuel da Silva Gaio nos vai falar. Eu permito-me dizer-lhe, Sr. Dr. Manuel Gaio, que considero esta conferência uma gentileza para esta Associação. Um homem da sua estirpe não tem porém o direito de ser gentil só para alguns, porque as suas ideias e os seus juízos devem ultrapassar o âmbito dos seus ouvintes de hoje.
Foi para lhe conceder a palavra que me convidaram a ocupar este lugar.
Não o farei: não tenho coragem.
Quero apenas limitar-me a lembrar, a quem o vai ouvir, o dever de o escutar com a mais atenta das atitudes. Ouçamos, pois, minhas senhoras e meus senhores.
— E que somos nós? — exclamou Ega. — Que temos nós sido desde o colégio, desde o exame de latim? Românticos: isto é, indivíduos inferiores que se governam na vida pelo sentimento, e não pela razão... (Eça de Queirós, Os Maias)
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