ARGUMENTO DE “LUTA CONTRA CORRUPÇÃO” JUSTIFICA DITADURA?

Os argumentos sobre a “luta contra a corrupção e contra os políticos” começam a ganhar espaço para deixarem entrar sistemas ditatoriais. O caso relatado pelo O Ponney aconteceu na Tunísia, mas poderia um dia acontecer em Portugal, ou em qualquer país democrata.
Em 2019 foi eleito Kais Saied, um político e ex-professor de direito constitucional da Tunísia, atual presidente da Tunísia. Saied apresentou-se com uma narrativa muito forte contra a corrupção e contra o lobby político, e pessoas como, o seu maior adversário político, Nabil Karoui, foi acusado de lavagem de dinheiro, foram exatamente seu tipo de alvo.
Com estes discursos, idênticos ao que alguns partidos extremistas fazem em Portugal, acabou por receber apoio de vários setores da população, de tunisinos de classe média alta à classe trabalhadora, principalmente desempregados. Saied foi eleito em 13 de Outubro de 2019 em uma eleição na qual disputou com Nabil Karoui, o magnata da comunicação social. Mas logo no dia 25 de Julho de 2021 dissolveu o parlamento após uma série de protestos, no que está caracterizado por muitos organismos internacionais (como a Amnistia Internacional) como “um golpe de estado”.
A confirmar este abuso de poder contra a democracia foi o facto de quarenta opositores de Kais Saied terem sido condenados a penas que vão dos 13 aos 66 anos de prisão. Presidente tunisino já tinha dito que eram culpados e que os juízes que os absolvessem seriam cúmplices, numa clara pressão do seu poder.
Em Abril de 2025 o tribunal tunisino condenou a penas de prisão de 13 a 66 anos, os líderes da oposição, empresários e advogados, acusados de conspiração contra a segurança do Estado, um caso que a oposição diz ser fabricado e um símbolo do regime autoritário do Presidente Kais Saied. Dos 40 arguidos do processo, uma vintena fugiu do país depois de ser acusado, tendo sido julgado à revelia.
No dia 11 de Maio de 2024, polícias mascarados invadiram a Ordem dos Advogados da Tunísia, em Tunes, e prenderam Sonia Dahmani, detida na prisão de Manouba, onde permanece desde o seu rapto. As autoridades tunisinas condenaram Sonia com base em acusações infundadas de «divulgação de notícias falsas».Sonia Dahmani é uma advogada e comentadora política em vários meios de comunicação social, dedicando a sua vida à defesa dos direitos humanos.
Sonia defendia os marginalizados, dizendo o que outros têm medo de dizer, independentemente do custo. Criticou as condições desumanas nas prisões e do racismo, abordando, regularmente, estas questões em programas de televisão e rádio. Hoje, em Novembro de 2025, enfrenta muitos anos de prisão por se manifestar contra as injustiças.
A sua prisão foi uma tentativa clara do presidente que argumentava que era contra os políticos e a corrupção, Kais Saied, para a silenciar. Neste momento está detida em condições desumanas. A sua cela, que partilha com outras quatro pessoas, não tem as mínimas condições humanas e, para além disso, tem sofrido maus-tratos por parte das autoridades prisionais e está a ser-lhe negada assistência médica adequada, incluindo a medicação de que necessita urgentemente. Desde a sua detenção, Sonia desenvolveu graves problemas de saúde, incluindo diabetes, dores nas costas e nos joelhos, inchaço nas pernas e hipertensão arterial.
Ninguém deve ser preso por se manifestar contra a injustiça e tudo começou com um político que argumentava que iria acabar com a corrupção e com os políticos.
JAG
14-11-2025
