MALDADE SEM LIMITES

MALDADE SEM LIMITE 1

 

Nem sempre a maldade se manifesta apenas em quem tem poder, e raramente aparece de forma isolada, mas para crescer, ampliar-se, esconder-se, usa frequentemente o poder.

O caso de Jeffrey Epstein, tornou-se um dos exemplos mais perturbadores do abuso sistemático deste poder. Apesar de Epstein, ter sido acusado e condenado por crimes de abuso sexual, tráfico de menores e canibalismo, o seu grupo de poder e o envolvimento de figuras públicas, fizeram com que não fosse tratado como um cidadão “normal”. Com a divulgação dos ficheiros Epstein, veio à tona uma faceta profunda da verdadeira maldade humana: o que figuras influentes fazem com o seu poder quando ninguém os está a ver, a crueldade total está protegida pela impunidade da sociedade e que, ainda assim, muitas vezes aumenta-lhes o poder.

Desde 19 de dezembro de 2025, têm vindo a ser divulgados os ficheiros, sendo do conhecimento público que ainda existem milhares de documentos e ficheiros por analisar e divulgar, o que acaba por manter o caso ativo e incompleto. 

Desde essa altura, o interesse público pelo caso, refletiu-se nas tendências de pesquisa online. Contudo, esta atenção sofreu uma mudança radical com o início da guerra no Irão, a 28 de fevereiro de 2026, e desde então, os ataques passaram a dominar a atenção pública e mediática. De acordo com o Google Trends, as pesquisas relacionadas com o ataque aumentaram cerca de 1200%, enquanto as pesquisas sobre o caso Epstein caíram aproximadamente 95%. Os dados mostram um pico elevado de interesse antes do conflito, seguido de uma queda acentuada após o seu início.

É precisamente nesta sobreposição de acontecimentos que surgem as primeiras ligações, não como factos comprovados, mas como interpretações e suspeitas. Os dados indicam uma deslocação clara da atenção coletiva, o foco passou de um escândalo complexo e prolongado para um acontecimento imediato e de grande impacto.

Este fenómeno, por si só, é um facto: a atenção coletiva deslocou-se. No entanto, a explicação para essa mudança já entra no campo da interpretação. O Embaixador do Irão no Brasil, Abdollah Nekounam Ghadiri, associou publicamente os ataques militares dos EUA e de Israel contra o Irão, a uma tentativa de desviar a atenção do caso Epstein. Segundo afirmou, esta situação serviria para abafar os desenvolvimentos dos arquivos Epstein, que poderiam implicar figuras poderosas do "sionismo israelita" e da elite política norte-americana para esconder redes de chantagem e abuso.

Também, no dia 1 de março, horas após os ataques dos EUA, Thomas Massie, coautor da Lei de Transparência dos Arquivos Epstein, publicou na rede social X: "Bombardear um país do outro lado do mundo não fará com que os arquivos Epstein desapareçam". 

Paralelamente, no dia 6 de março, o Departamento de Justiça dos Estados Unidos publicou três entrevistas a uma mulher que alegadamente terá sido vítima de agressão física e sexual por parte do Presidente dos EUA, Donald Trump.

De forma mais geral, há quem veja o ataque como resultado de interesses estratégicos mais amplos. Por um lado, existe a ideia de que acontecimentos como uma guerra podem desviar a atenção pública de temas sensíveis, como o caso Epstein. Por outro, há explicações mais consensuais, onde o  Médio Oriente é uma região chave devido à sua importância geopolítica e aos seus recursos energéticos, como o petróleo e o gás, o que leva grandes potências a intervir para manter influência e controlo. O que não é, por si só, uma contradição, entre quem defenda a “cortina” que cobre o caso Epstein e os interesses de captura de recursos energéticos.

Ao surgir um acontecimento impactante, como uma guerra, temas complexos, demorados e desconfortáveis, tem uma tendência para se esconder do centro das atenções, não porque deixem de ser relevantes, mas porque acabam por ser ofuscados.

No meio desta realidade, ficam para trás as vítimas. Não apenas as vítimas associadas aos milhares de ficheiros de Jeffrey Epstein, crianças e jovens cujas vidas foram profundamente marcadas por abusos, muitas vezes com consequências irreversíveis, mas também as vítimas da guerra, um conflito que muitos consideram desnecessário.

Até ao momento, a guerra já terá causado pelo menos 1.172 mortes civis, incluindo 194 crianças, além disso, terão sido mortos cerca de 176 militares, de acordo com a HRANA (Agência de Notícias de Ativistas de Direitos Humanos, com sede nos Estados Unidos). 

Talvez a verdadeira questão não seja se existe ou não uma ligação direta entre estes acontecimentos, mas sim o que revelam sobre o funcionamento do mundo. A guerra ocupa os ecrãs, o escândalo desaparece do centro da conversa, a indignação pública desloca-se, a pressão esmorece e o tempo, silenciosamente, começa a diluir responsabilidades.

Quando a atenção coletiva é desviada, não é apenas informação que se perde, é a justiça que é adiada. Não é um tema que é substituído por outro e que muitas das vezes pode ser complementar para os interesses crueis de quem se esconde atrás do poder. Para trás ficam as vozes temporariamente sem volume. A rotina do mal existe, mas é necessário que o mundo esteja demasiado ocupado para a perceber.

No fim, o que permanece não é o ruído da guerra nem o impacto momentâneo das notícias, mas as consequências profundas que ficam nas vítimas, marcas profundas que continuam independentemente do debate público. Num mundo em que a atenção é limitada, quando o foco é alterado a responsabilidade enfraquece e é aí que a maldade encontra um espaço para se continuar a expandir, silenciosamente e estrategicamente.

 Iara Santos

20/03/2026