A AMALDIÇOADA ESTÁTUA DE LUÍS DE CAMÕES EM PARIS

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A estátua de Luís de Camões, em Paris, passa praticamente despercebida. Muitos Portugueses residentes na capital francesa, nem sabem da sua existência. Não sabem sequer que existe uma avenida Camões, no 16° bairro de Paris, ali bem perto da Praça du Trocadero e da Tour Eiffel. A avenida Camões tem pouco mais de 100 metros! Quem está na Praça du Trocadéro, vira para a Rua Benjamin Franklin e é a segunda à esquerda. Não tem saída. Acaba num escadario que vai dar ao Boulevard Delessert, a artéria que vem de Passy e vai acabar nos jardins do Trocadero. Primeiro chamava-se Passage e depois passou a ser Avenida. Foi inaugurada em 1904 e era, na altura, uma rua privada, como há muitas em Paris. Foi mandada construir pelo Conde Armand, filho de um antigo Embaixador de França em Lisboa, o Conde de la Rochefaucauld-Bayers. A estátua está num bairro chique, num lugar nobre, mas tem uma das histórias mais perturbadas das estátuas de Paris! A primeira estátua de Camões foi inaugurada no dia 13 de junho de 1912, quando se celebrava a morte do poeta, em 1580. Na verdade, era um busto, enorme, encomendado ao escultor italiano Luigi Betti, instalado num pedestal com cerca de 5 metros de altura. Era pois uma obra imponente. Mas a população não gostou! Camões foi um poeta boémio, um Dom Juan que corria atrás de todas as saias que lhe passavam pela frente. Num duelo acabou por ficar sem um olho e os habitantes de Paris 16 não gostaram da ideia de ter, no bairro, uma estátua de um “zarolho”. Certamente não conheciam a história do maior poeta português de todos os tempos, não leram os seus sonetos, desconheciam completamente os Lusíadas e a sua importância na transmissão da epopeia marítima dos Portugueses. Desconfia-se até que nem conheciam as Descobertas Marítimas dos nossos antepassados…Porque só com o desconhecimento é que se pode explicar as reacções virulentas contra a estátua. Atiravam tomates ao pobre busto e passaram a despejar o lixo nos pés do pobre poeta português. Foi um cenário triste. Em Paris havia gente que conhecia Portugal e Camões e a estátua e a avenida tinham sido influenciadas pela Sociedade de Estudos Portugueses, criada  por Xavier de Carvalho, jornalista, correspondente de jornais franceses e portugueses, homem de “bem falar” que soube criar amizades “de topo” na capital francesa, e também em Portugal, como a Rainha D. Amélia, uma mulher de Cultura, muito apaixonada por Portugal, que influenciou a criação desta Sociedade, que acabou por ter como presidentes de honra Frédéric Mistral, Anatole France e Jean Richepin. A inauguração da estátua foi feita “com pompa e circunstância”, ou melhor “à grande e à francesa”. Portugal fez-se representar pelo seu Embaixador em França, João Chagas. Coube ao poeta e romancista Jean Richepin fazer o discurso de abertura. A actriz Caristie Martel, da Comédie Française, leu poemas dedicados a Camões, e até houve a participação da cantora javaneza Wilna Knaap! Depois, mais de 200 convidados foram para um repasto no luxuoso Hotel Intercontinental, onde voltou a ser evocada a memória do poeta, com mais discursos, mais hinos e mais palmas. Foi um dia muito bonito.  Um ano mais tarde, em Junho de 1913, quando os amigos da Sociedade de Estudos Portugueses se preparavam para prestar mais uma homenagem à memória do poeta épico, a estátua desaparecera. Sem que alguém se apercebesse, levaram o busto, e o pedestal. Impossível encontrá-los. Paris, que era a única cidade fora de Portugal a ter uma estátua de Luís Vaz de Camões… ficou sem ela! Mas a saga não acabou por aqui! A Sociedade de Estudos Portugueses acabou por encontrar a estátua realizada por Luigi Betti num antiquário parisiense, recuperou-a e ofereceu-a à prestigiosa Biblioteca Mazarine. Mas os leitores da biblioteca, vá-se lá saber porquê, não gostaram da estátua, e a Administração desceu-a à cave, onde ficou alguns anos. Acabou por oferece-la à Fundação Calouste Gulbenkian de Paris, que entretanto tinha sido criada. António Coimbra Martins conta que “chegou numa carreta, embrulhada numa sarapilheira” e que a esposa de Azeredo Perdigão presenciou à chegada. O então Presidente da Fundação decidiu organizar uma inauguração, bem menos solene que a de 1912. Uns anos depois, subiu ao primeiro andar do Centro Cultural que a Gulbenkian teve em Paris, no palacete onde viveu o próprio Gulbenkian. Mas, entretanto, a Fundação vendeu o edifício e mudou-se para o Boulevard de la Tour Maubourg. Não quis levar a estátua e foi pô-la na sede do Centro Cultural Camões, na Avenida Raffet, em Paris. Só que o Governo decidiu vender o edifício. Foi Miguel Magalhães, Adjunto do Director da Gulbenkian, com “os braços da casa”, que recuperou o badalado busto de Camões, para o levar para um pequeno jardim anexo da Casa de Portugal André de Gouveia, na cidade universitária internacional de Paris, onde está actualmente. Discreto, como sempre esteve. No início dos anos 80, graças a Rui da Silveira, foi mandado construir novo monumento em homenagem a Luís de Camões, e mandado colocar no fundo das escadas da avenida Camões, no sítio onde estava a primeira estátua.  Foi inaugurado no dia 19 de Outubro de 1987, por Jacques Chirac, na presença de Mário Soares. Menos imponente, muito mais discreto, o novo busto acabou por ser aceite pelos residentes que, desta vez, não lhe atiraram tomates! Mas uma “maldição” continua a pairar sobre o monumento. Em 2016, quando o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, foi a Paris para comemorar o Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas,… esqueceu-se de depôr um simples ramo de flores em frente do autor de Os Lusíadas.

(Luso Jornal. Carlos Pereira, 26 Agosto de 2017) 

In Pedro Dias