A luz

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A oratória “A Criação” é uma das obras cimeiras de Haydn, fruto do seu contacto com a cultura britânica e, em particular, com a oratória “O Messias” de Haendel e com o livro “O Paraíso Perdido” de Milton. Na extraordinária abertura que encabeça a obra, a orquestra apresenta harmonias dissonantes arrojadíssimas, que inequivocamente se associam ao caos primevo que antecede a obra criadora de Deus. Um solista e o coro começam então a recitar em surdina as primeiras palavras do livro do Génesis:

 

No princípio, Deus criou os céus e a terra. A terra era informe e vazia. As trevas cobriam o abismo, e o Espírito de Deus movia-Se sobre a superfícies das águas.  Deus disse: «Faça-se a luz!» E fez-se luz.

 

Sobre esta última repetição da palavra “luz”, Haydn faz rebentar uma intervenção fortíssima da orquestra, capaz de abrir os olhos a um cego e os ouvidos a um surdo…

 

Os sacerdotes judeus que compuseram este hino tinham já a noção bem clara de que a luz era ela própria um elemento da criação, e um dos elementos primordiais… O esclarecimento da natureza física da luz levou contudo muitos séculos.

 

Desde muito cedo se aprendeu a manipular a luz através de dispositivos ó ticos como lentes e espelhos. No século XVII houve um debate entre o físico inglês Isaac Newton e o físico holandês Christiaan Huygens: Newton defendia que os raios de luz eram constituídos por pequenas partículas em trânsito, enquanto que Huygens propunha que os fenómenos ópticos correspondiam antes à propagação de perturbações num meio (como as ondas que os adeptos gostam de criar nos estádios, em que as partículas/adeptos permanecem no seu lugar enquanto a perturbação/onda viaja). Na época, os dois modelos eram indistinguíveis à luz da experiência. Contudo, podiam ser distinguidos através da medida da velocidade da luz na água: o modelo de Newton previa que a velocidade da luz na água fosse superior à do ar; o modelo de Huygens previa o contrário. Só no século XIX foi possível a realizar essa experiência, que confirmou o modelo de Huygens. A natureza física desta onda permanecia no entanto misteriosa.

 

Foi em 1865 que o físico escocês James Maxwell fez uma sugestão muito atrevida: Maxwell dedicava-se ao estudo dos fenómenos elétricos e magnéticos e descobriu que, tal como os adeptos num estádio, as perturbações associadas ao movimento de cargas elétricas se propagavam como uma onda. Conseguiu até descobrir a velocidade dessa onda e, para seu grande espanto, descobriu que o valor dessa velocidade coincidia com o valor conhecido experimentalmente para a velocidade da luz. Seria coincidência? Foi o grande físico alemão Heinrich Hertz que verificou experimentalmente que não era coincidência: a luz era mesmo um fenómeno ondulatório eletromagnético. A síntese dos fenómenos eletromagnéticos levada a cabo por Maxwell permanece assim como um dos grandes pilares da física contemporânea, a par dos trabalhos de Newton na ciência do movimento e na gravitação. Não espanta por isso que os físicos bem humorados se passeiem (por vezes em sala de exame!) com T-shirts reproduzindo as equações de Maxwell, precedidas pela frase genesíaca “E Deus disse…” e sucedidas por “E fez-se luz!”

 

Com os trabalhos de Maxwell e de Hertz, parecia que se tinha finalmente alcançado uma visão científica do Fiat lux bíblico. O Criador, contudo, tem um sentido de humor muito especial, pelo que a compreensão física do fenómeno luminoso tinha apenas começado…

Michelangelo: Separação da luz das trevas (Tecto da Capela Sistina)

 

http://www.youtube.com/watch?v=YJfwQz_unwE

                                                                                                                                                                                                                                                   Rui César Vilão