ABUTRES DA INTERNET

JO JONES120

 

A divulgação de certas imagens que ferem a dignidade humana é um tema que merece a nossa reflexão urgente.

Há cerca de três semanas, fui confrontada com a publicação de uma fotografia com uma senhora em fase terminal, deitada num corredor das urgências de um hospital em Coimbra.

Na minha opinião este tipo de imagem não apenas comprometeu a privacidade do indivíduo, mas também transformou um momento de vulnerabilidade extrema em espetáculo, sem qualquer consideração pelo sofrimento da sua família. Mesmo que se considere a intenção de denunciar uma situação com alegada responsabilidade dos serviços de Saúde, para mim, é inconcebível tal exposição de uma pessoa ainda por cima de um familiar.

Perguntei-me como era possível que uma doente terminal estivesse exposta dessa maneira, em vez de receber os cuidados paliativos adequados ou de passar os seus últimos momentos rodeada pelo amor dos seus entes queridos. A imagem, que circulou nas redes sociais e foi publicada em jornais, redes sociais, televisões, e foi utilizada como forma de criticar o nosso Serviço Nacional de Saúde. Mas a crítica não pode ser feita à custa da dignidade de uma vida humana.

A minha discordância em relação a essa divulgação gerou reações polarizadas. Fui alvo de insultos de indivíduos que, escondidos atrás do anonimato, se tornam verdadeiros abutres à espreita de presas fáceis para destilarem o veneno que acumulam. Essas pessoas não se tornam mais fortes com os seus ataques, pelo contrário, são fracas, incapazes de verbalizar as suas opiniões no dia a dia porque carecem de argumentos sólidos. Ao refugiarem-se atrás de um ecrã de computador ou de um teclado, entram nas redes sociais para propagar discursos de ódio, escárnio e maledicência muitas vezes fugindo ao tema principal .

É urgente que medidas sejam implementadas para evitar que situações semelhantes ocorram novamente, garantindo a proteção da dignidade de todos. A violência verbal não é apenas falta de respeito, é um crime punível por lei.

Bem sei que a desumanização já existe antes das novas tecnologias, mas as que permeia nas redes sociais é alimentada pela rapidez com que as informações circulam, transforma vidas em meros objetos de consumo. Precisamos ser críticos em relação ao que consumimos e partilhamos. O respeito pela dignidade dos indivíduos, especialmente em momentos de fragilidade extrema, deve ser a nossa prioridade. Somente assim poderemos construir uma sociedade onde a humanidade prevaleça sobre a curiosidade mórbida e a exploração.

Que esta reflexão nos toque profundamente e nos inspire a agir em defesa da dignidade humana, promovendo uma comunicação responsável e ética. A humanidade deve sempre ser colocada acima do sensacionalismo e da exploração. É nossa responsabilidade zelar pelo respeito e pela solidariedade, construindo pontes em vez de muros entre nós. Quanto a mim, vou continuar a criticar o que acho que é criticável.

M. Jones