De Virgens Ofendidas a Coletores de Tralha Política

OTAVIO FERREIRA16

 

Em tempos de efervescência política, onde o descontentamento com o establishment se transforma em votos de protesto, o partido Chega surge como um fenómeno incontornável no panorama português. Fundado com base em causas que ressoam junto de muitos eleitores – como o combate à corrupção, a defesa da soberania nacional e a crítica ao sistema partidário tradicional –, o Chega prometia ser uma lufada de ar fresco.


No entanto, como ex-militante, candidato autárquico, conselheiro nacional e coordenador concelhio que abandonei a "associação" em setembro de 2024, após vislumbrar que nada ali seria levado a sério, vejo-me compelido a partilhar uma visão que pode chocar alguns, mas que é necessária: os deputados que migraram para o Chega fizeram um enorme favor aos partidos de origem.


E, aos que se queixam, digo: não reclamem, pois, esta concentração de "tralha política" num só lugar é um alívio para o sistema. Vamos ao cerne da questão. Muitos dos deputados que hoje envergam as cores do Chega provêm de outros partidos, onde, de alguma forma, contaminam o ambiente. Eram aqueles elementos que, por oportunismo, radicalismo mal disfarçado ou simples desleixo ético, minaram a credibilidade das formações políticas tradicionais. Pense-se em figuras que saltam do PSD, do CDS ou até de outros quadrantes, carregando consigo um historial de controvérsias, promessas vazias e uma propensão para o populismo fácil. Ao partirem para o Chega, libertaram os seus antigos partidos de um peso morto, permitindo que estes se recentrassem em agendas mais construtivas. É como se o Chega tivesse funcionado como um íman para a "tralha política": recolheu os descontentes, os ambiciosos sem escrúpulos e os que viam na política uma via para "tratar da sua vidinha". E, francamente, isso foi um favor. Os outros partidos, em vez de se portarem como virgens ofendidas, deviam agradecer. A concentração destes perfis num só partido alivia a pressão sobre o sistema, expondo as falhas de forma isolada e facilitando a depuração dos restantes.
Não me interpretem mal: a causa do Chega, em abstrato, está certa. Há uma necessidade urgente de mudança no estado da arte política em Portugal. Precisamos de alterar o paradigma, combater a ineficiência burocrática, defender os interesses dos cidadãos comuns face a elites desconectadas e promover uma governação mais transparente. O descontentamento que impulsionou o Chega é legítimo – ele reflete as frustrações de quem vê o país estagnado, com problemas como a habitação inacessível, a saúde em colapso e a imigração descontrolada. No entanto, esta causa nobre está condenada ao fracasso enquanto se mantiver o perfil atual de deputados.


Muitos são eleitos pelos distritos, mas, uma vez no Parlamento, dedicam-se exclusivamente a "tratar da sua vidinha". Ignoram as dificuldades e os problemas das populações que os elegeram, prometem mundos e fundos durante as campanhas e, depois, desiludem de forma sistemática.


É preferível surpreender positivamente do que prometer o impossível e falhar redondamente. Como alguém que esteve no interior da máquina, posso atestar: vi de perto como o Chega atrai "artistas" da política – aqueles que encenam indignação nas redes sociais, mas que, na prática, pouco ou nada fazem pela causa. São coletores de tralha, acumulando cargos, influências e desilusões alheias sem produzir mudanças reais. Abandonei o partido precisamente porque percebi que não era para levar a sério. Em setembro de 2024, após meses de observação, concluí que o potencial transformador se dissipou em meio a egos inflados e agendas pessoais.


Precisamos, sim, de uma mudança profunda na política portuguesa, mas não com estes "artistas". É hora de apostar em perfis genuinamente comprometidos, que surpreendem pela ação em vez de desiludirem pela retórica vazia.


Em suma, aos partidos tradicionais: parem de se ofender como virgens imaculadas. O Chega, ao recolher esta tralha política, fez-vos um favor. E ao Chega: se quereis resultar, mudai o perfil dos vossos representantes. Caso contrário, seria apenas mais um coletor de descontentes, sem legado duradouro.


A política precisa de ser levada a sério – e isso começa por nós, os cidadãos.

"A honestidade é a melhor política." Benjamin Franklin

 

Otávio Ferreira