LINHAS, PARA QUE VOS QUERO?

Caminhar por uma cidade classificada como Património Mundial da UNESCO deveria ser uma experiência de imersão na beleza e na história. Contudo, em Coimbra, o olhar tropeça constantemente num emaranhado de cabos suspensos e postes fustigados pelo tempo. São as cicatrizes de uma rede de troleis (autocarros elétricos) que o anterior executivo decidiu condenar ao abandono, deixando para trás uma herança de poluição visual e desleixo urbanístico.
Estas linhas, que outrora simbolizaram uma mobilidade ecológica pioneira, hoje não passam de esqueletos de metal a apanhar ferrugem. Para além da imagem desoladora e inestética que transmitem a quem nos visita e a quem aqui vive, estas infraestruturas representam um desperdício de recursos inaceitável.
O valor do "lixo"
Não estamos a falar apenas de poluição visual; estamos a falar de património com valor económico real. O cobre das linhas e o metal dos postes têm valor de mercado. É imperativo que a cidade se liberte deste "entulho aéreo" e que o retorno financeiro dessa remoção seja canalizado para onde ele é mais preciso: os Serviços Municipalizados de Transportes Urbanos de Coimbra (SMTUC).
Aprender com os erros do passado
Mas atenção: este investimento tem de ser sério. Não podemos repetir episódios lamentáveis da nossa história local — como o caso dos autocarros usados que acabaram por ser pouco mais do que sucata dispendiosa. O dinheiro proveniente da desinstalação destas linhas deve servir para modernizar a frota, melhorar as condições de trabalho e garantir que os SMTUC recuperam a eficiência que a cidade exige.
Limpar o céu de Coimbra desta teia obsoleta é uma questão de higiene urbana e de respeito pelo título da UNESCO. Reverter esse valor em transporte público de qualidade é uma questão de inteligência e gestão pública.
Senhores autarcas, a pergunta impõe-se: linhas, para que vos queremos? Se já não servem para mover a cidade, que sirvam, pelo menos, para financiar o seu futuro e devolver a dignidade às nossas ruas.
Otávio Ferreira
