O CANTO DA ESPERANÇA: O DIA EM QUE A MEDICINA DESARMOU O DESTINO

Escrevo estas linhas a partir da minha cama de hospital. Daqui, onde o mundo se recolhe e o tempo ganha outra densidade, olho em redor.
Estou, mais uma vez, nos Hospitais da Universidade de Coimbra. No meio da fragilidade que nos traz a este lugar, sou acolhida pelo mesmo abraço de sempre: sou tratada com um carinho imenso e com a dignidade profunda que todo o ser humano merece receber nos momentos de maior vulnerabilidade.
Ao meu lado, o quarto é partilhado com duas outras senhoras.
Duas companheiras de silêncios e de suspiros. Uma tem a minha idade; a outra é mais jovem, com tanta vida ainda por desenhar. Infelizmente, uma delas carrega o peso avassalador do cancro. Olhar para ela faz-me regressar no tempo, a este mesmo hospital, há precisamente cinco anos.
Naquela altura, partilhei os dias com a Andreia. Tinha apenas 32 anos e duas crianças pequeninas a esperá-la em casa. Quando tive alta, o meu coração ficou apertado; eu saí e ela ficou ali, naquela batalha. Antes de ir embora, deixei um livro como um abraço em forma de páginas e uma mensagem de profunda esperança. Voltámos a falar algum tempo depois, mas já era tarde. A doença tinha vencido e já não havia esperança. A memória do seu rosto e da sua partida precoce acompanha-me sempre. O cancro, sabemos todos, mata. E, antes de apagar a luz da vida, impõe um sofrimento terrível, roubando as forças e desgastando a alma de quem ama. Hoje, ao olhar para esta senhora aqui ao meu lado, o meu coração aperta-se num desejo profundo: espero, do fundo da minha alma, que para ela o desfecho seja diferente e que haja muito mais esperança.
No entanto, mesmo no epicentro dessa dor e sabendo da nossa finitude, a humanidade recusa-se a desistir. É profundamente tocante perceber que, enquanto nós aqui travamos batalhas individuais, há um exército silencioso de cientistas que não cruza os braços. Recentemente, uma lufada de esperança invadiu a comunidade médica: a chegada de uma nova injeção inovadora para o cancro da cabeça e do pescoço, um tratamento promissor que começou agora a ser testado em hospitais portugueses com resultados impressionantes na redução e eliminação de tumores.
Ao mesmo tempo, assistimos a um avanço histórico no combate ao cancro do pâncreas, consensualmente um dos tumores mais agressivos e letais que conhecemos. A descoberta de novas terapias que conseguem bloquear mutações genéticas específicas e duplicar o tempo de sobrevivência traz uma luz inteiramente nova à oncologia. Saber que a ciência avança traz um alento indescritível. É a certeza de que há uma pequena luz na medicina que se recusa a apagar.
Ao longo da história, a nossa espécie foi severamente castigada por doenças devastadoras, pestes e epidemias que dizimaram milhões de vidas humanas. Aprendemos a temer o invisível. Mas se fomos capazes de vencer flagelos antigos com o conhecimento, hoje sentimos que já é tempo de salvar vidas em definitivo. O cancro provoca uma dor atroz, mas há outros cancros sociais criados pelas nossas próprias mãos.
Já é tempo de acabar, também, com as guerras e com a fome. Todo este conjunto mata de forma cruel. Mata a bomba, mata a escassez, mata a negligência. É doloroso pensar que, enquanto a ciência se desdobra para prolongar a vida humana, o egoísmo e o conflito se apressam a destruí-la. Precisamos da cura para os corpos, mas também de uma cura urgente para a alma do mundo.
Viver com uma doença grave é um exercício diário de dualidade: é ter a consciência plena de que vamos morrer, mas, mesmo assim, escolher a esperança. É olhar para a dor que nos rodeia e, ainda assim, sorrir perante a promessa de um amanhã melhor.
Que a luz descoberta hoje nos laboratórios se estenda aos corações dos homens. Da minha cama de hospital, entre a gratidão pelo cuidado que recebo e a compaixão pelas minhas vizinhas de enfermaria, continuo a acreditar. Já é tempo de celebrar a vida.
MANUELA JONES
